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18 de abril de 2009

Lenda da noite de S. Silvestre

Lendas de Portugal segundo Gentil Marques.
Conta-se que, há muitos, muitos anos, existia em certo local do Oceano Atlântico o mais maravilhoso de todos os países do mundo: a Atlântida.
Segundo a narrativa de Platão, a Atlântida que coubera inicialmente em partilha a Poséidon, devido aos amores deste deus com a mortal Clito, foi depois dividida pelos dez filhos de ambos. Destes passaram aos seus descendentes até que os seus reis tiveram a ideia de conquistar o mundo.
Diz-se mesmo que o último desses reis chegou a desafiar os Céus.
- Sim! Que podem os Céus contra nós?... Que pode o mundo contra nós, que somos os reis da Atlântida? Nós temos o poder dos deuses!
E conforme se diz também, nesse instante o rei escutou uma voz que ecoava dentro de si próprio e lhe dizia:
- Enganas-te! Não há homem algum que tenha o poder de Deus!
Espantado, intrigado e furioso, o rei da Atlântida olhou em redor de si sem nada ver.
- Quem fala? Quem se atreve a erguer a voz na minha presença, sem me pedir autorização para tal?
- É Deus que te fala, mesquinho rei da Atlântida, homem frágil e meu servo.
- Deus? Mas qual dos deuses?
- O único Deus que existe!... O criador da vida e da morte!
- Pois, a esse tal deus que me fala, seja ele qual for, desafio-o a que se oponha aos meus planos!... Eu não tenho medo... Eu sou o rei da Atlântida, o mais poderoso império de todos os impérios!... Tenho fortuna e forças suficientes para esmagar o mundo! E para começar vou submeter e esmagar o poder de Atenas!
- Atreve-te rei tolo e ambicioso... atreve-te e verás o resultado!...
Não se intimidou o rei da Atlântida. Mandou que se formassem os seus exércitos prontos para a grande batalha.
- Se vencermos o poder de Atenas, o mundo será nosso! Ninguém mais se atreverá a erguer-se na nossa frente!... Nem os próprios deuses ousarão tal... Portanto, guerreiros que me escutais, segui os vossos chefes, tal como os vossos chefes me seguirão, e a vitória será nossa!
Assim se travou - conforme nos conta ainda Platão - a espantosa batalha entre os povos do Ocidente das Colunas de Hércules, comandados pelo rei da Atlântida, e os povos de Leste chefiados por Atenas.
No meio da refrega, porém, surgiu a mesma voz que se sobrepôs ao fragor da luta:
- A vitória será de Atenas para que os reis da Atlântida sofram uma terrível lição. Atlântida desaparecerá para sempre e o seu nome há-de ficar, pelos séculos dos séculos, como o símbolo da grandeza destruída por sua própria culpa.
E na verdade os guerreiros da Atlântida foram derrotados pelos guerreiros de Atenas. E à derrota sucederam-se terríveis terramotos e fantásticas inundações. Num só dia e numa só noite, o que fora o esplendoroso e incomparável reino da Atlântida desapareceu por completo, engolido pelas águas do Oceano.

Muitíssimos anos passaram sobre esse dia...
Até que, certa vez, bastantes séculos depois da morte de Jesus Cristo, sua Mãe, Virgem Maria, debruçava-se lá dos Céus, sobre o Oceano que se estendia a seus pés. E, junto dela, passou um santo ainda jovem. Vendo-a tão absorta, o Santo parou e perguntou:
- Senhora, que estais a ver com tanto interesse?...
A Senhora Mãe de Jesus ergueu o seu olhar doce:
- Ah! Sois vós, Silvestre?
- Sou eu sim, Senhora... Perdoai-me mas vinha à vossa procura... à procura dos vossos conselhos...
- Que vos preocupa, Silvestre?
- Senhora, esta é a minha noite...
- Bem sei... é a última noite do ano.
- É por isso mesmo, Senhora... É por isso mesmo que vos desejo falar.
- Eu... Eu tenho pensado... enfim... acho que esta última noite do ano... a minha noite... devia significar para os homens, lá em baixo, mais alguma coisa do que tem significado até agora...
Uma interrogação muda transpareceu no rosto da Senhora dos Céus. E o Santo ajuntou, já mais à vontade:
- Pois bem, Senhora... se me permitis... julgo que esta noite poderia marcar uma fronteira entre o passado e o futuro... Ou seja, poderia servir para os homens se arrependerem dos erros cometidos e prometerem a si próprios esperança de melhores dias.
A Virgem aprovou com um leve inclinar de cabeça.
- Acho muito boa ideia...
E logo entusiasmando-se mais, São Silvestre completou o seu pensamento:
- E vem a propósito, não achais, Senhora? Antes realiza-se a festa do Natal, a festa de Jesus, Vosso Filho... Depois... bem, depois viria a festa do Fim do Ano... a festa da minha noite, como chamada de atenção à consciência dos homens.
- Dizeis bem, Silvestre!... Cada vez mais, a consciência dos homens precisa de ser vigiada. Ainda há pouco, quando chegaste, estava eu a olhar lá para baixo...
- Eu bem vi, Senhora... E parecíeis tão triste...
Houve um breve silêncio. Depois, a Virgem perguntou:
- Sabeis o que estava a observar nesse momento, Silvestre?
- Não sei, Senhora, não...
- Pois estava a relembrar o fausto e a beleza maravilhosa dessa ilha chamada Atlântida, que Deus fez afundar para castigo dos pecados sem fim dos seus habitantes e como aviso à soberba dos homens.
Dos olhos da Senhora tombaram lágrimas puras de tristeza.
- Mas, afinal, eles não se emendaram!... Silvestre, eles não se emendaram!
Emocionado, o Santo olhou-a melhor.
- Chorais, Senhora?
- É o coração que chora nos meus olhos, Silvestre! São lágrimas por misericórdia dos homens!
Num sobressalto de júbilo, São Silvestre, exclamou:
- Não são apenas lágrimas, Senhora... São pérolas... São autênticas pérolas que caem dos vossos olhos!...
E, nesse mesmo instante, tal como se perpetua na tradição popular, uma das lágrimas de Nossa Senhora deslizou lá dos Céus e foi cair sobre o próprio local onde desaparecera a maravilhosa Atlântida.
- Senhora, olhai!... Olhai!... Uma das vossas lágrimas caiu no oceano... E que bem fica ali no meio das águas... Uma pérola, uma pérola verdadeira, Senhora, a crescer, a tornar-se cada vez maior e mais bela... A Pérola do Atlântico!
E, deste modo, tal como se enraizou na alma do povo madeirense, nasceu a ilha da Madeira, e daí lhe vem o sobrenome.
Diziam os antigos que, noutros tempos, na noite de São Silvestre, quando batiam as badaladas da meia noite, erguia-se nos ares a visão surpreendente de um cortejo de maravilha, cheio de luz e de cores fantásticas e que deixava atrás de si um perfume estonteante...
No rodopio dos anos, este cortejo mágico da meia-noite desapareceu. Mas em seu lugar os homens criaram as festas de fim de ano na Madeira - a já internacionalmente famosa Noite de São Silvestre com o seu fogo de artifício que mais não é do que a evocação dos fascinantes sonhos antigos...

12 de março de 2009

Lenda do sinal do céu

Esta imagem do Castelo de Alenquer foi recolhida na net.
Lendas de Portugal segundo Gentil Marques.
D Gualdim, na semiobscuridade da sua cela, encontrava-se em profunda meditação. O seu corpo recuperava da tensão em que tinha andado durante a difícil conquista de Lisboa. De joelhos em terra, com o seu rosto escondido nas mãos, o corpo levemente inclinado para a frente, parecia a verdadeira estátua da oração.
Mas, subitamente, os seus sentidos entraram em alerta. D. Gualdim estremeceu pois teve a sensação de que não estava só e, retirando as mão do rosto, ergueu-se lentamente, apercebendo-se, apesar da penumbra da presença da figura magra e alta do superior do convento.
O superior, numa voz baixa e pausada, elucidou:
- Perdoai irmão, não queria interromper as vossas orações mas... tenho algo de importante a dizer-vos.
- Falai sem receio. Estava apenas dando graças a Deus pela bênção deste silêncio depois do tremendo inferno que foi a conquista de Lisboa.
- A minha presença aqui deve-se a um desejo do nosso rei D. Afonso Henriques. O sangue ferve-lhe nas veias e quer sair de novo a campo.
- Quando precisa el-rei de mim?
- Amanhã ao romper do dia.
- Lá estarei com os meus homens.
E, silenciosamente, como chegar, o superior saiu da cela de D. Gualdim.
Só, este ficou um momento imóvel, olhando um ponto vago no espaço. Depois, os seus joelhos voltaram a roçar a terra, o seu busto esguio tornou a encurvar-se e as suas mãos, mais uma vez, cobriram o seu rosto, de olhar brilhante e feições vincadas.
Em volta, o silêncio continuou silêncio e a penumbra, penumbra.

No horizonte, uma nesga de luz impôs-se às trevas da noite. Madrugada fresca de S. João. Em massa ainda indefinida caminhava o exército lusitano. D. Afonso Henriques mandou fazer alto.
- Aproximai-vos D. Guadim!
- Dizei, Senhor.
- Vou deixar aqui o exército sob as ordens de D. Ordonho. Preciso, primeiramente de fazer um reconhecimento.
- Vós? - admirou-se o cavaleiro - Será perigoso! Ficai que eu me sentirei honrado se puder fazer esse reconhecimento em vosso lugar!
Franziu o rei as sobrancelhas espessas.
- Disse-vos que desejo fazer um reconhecimento. E não lego em ninguém esse meu desejo! Sairei do campo disfarçado e acompanhado apenas por vós, d: Gualdim...
- É grande a honra que me concedeis, Senhor! Tão grande como a responsabilidade de vos trazer, de novo, são e salvo.
- Nada temeis! Quero apenas chegar junto do castelo dos mouros antes que o sol rompa. Preciso de descer para Alcácer, e não quero deixar mal defendidas as nossas costas, com focos que poderão perder-nos. Este castelo terá de ser nosso. Mas preciso saber se chegou a hora de o tomar. Aprontai-vos e segui-me... Tenho pressa!

A areia ensaibrada rangeu sob o metal do calçado do rei português. D. Afonso Henriques olhava o castelo, sobranceiro e sereno. Tudo parecia calmo à volta.
- Parece até um castelo de mouros encantados! Não se vê ninguém...
- Custa a crer que nem tenham vigias!
- Quem sabe?
- Cuidado, Senhor! Descobri além um vulto a mover-se...
O rei de Portugal franziu as sobrancelhas, numa concentração, enquanto dizia como se falasse consigo próprio:
- Vim aqui para saber se a hora era propícia à conquista deste castelo. Mandai-me um sinal do Céu ó Deus Todo-Poderoso! Mandai-me um sinal!
D. Gualdim guardara silêncio. Mas vendo que o vulto corria agora direito a eles, preveniu:
- Descobriram-nos! Vão dar o alarme!
O rei semicerrou os olhos, numa tentativa de ver melhor na meia-luz da madrugada nascente.
- Reparai bem, D. Gualdim! O vulto que corre para nós... é o de um cão enorme!
O cavaleiro-monge concentro os seus sentidos nesse vulto que corria direito a eles e se distinguia já perfeitamente.
- Assim é, meu Senhor! Mas nunca vi um alão (nome que se dava antigamente aos cães de caça) tão forte e grande! Teremos de o matar antes que dê o alarme...
Já o cão se encaminhava em direcção ao rei de Portugal. D. Gualdim gritou quase ao mesmo tempo que puxava da espada:
- Cuidado, Senhor!
Mas D. Afonso Henriques suspendeu-lhe o gesto. O alão mal chegou junto do rei começara a lamber-lhe as mãos, dando saltos de imensa e estranha alegria. D. Afonso Henriques sorriu:
- Reparai, D. Gualdim: o alão rende-me vassalagem! Recebe-me como a um libertador, ou como se me conhecesse há muito... Deve ser este o sinal do Céu! O avanço das nossas tropas far-se-à imediatamente e o castelo será nosso. O alão o quer!
Como num eco, D. Gualdim repetiu:
- O alão quer!

E desta frase lendária que ficou para todos os tempos, resultou a conquista de mais uma praça e o nome da terra que hoje se chama Alenquer. Confirmando o que narra a lenda, as armas da vila de Alenquer são: em campo de prata, um cão grande, pardo, preso a uma árvore com grilhão de ouro.

28 de dezembro de 2008

Lenda da que mal pica

Lendas de Portugal segundo Gentil Marques
Chegara o Inverno. E com ele o frio. E com ele a desolação. Em certa zona das Beiras, lá para o sul de Castelo Branco, havia um pequeno povoado onde vivia Aninhas, uma rapariguinha de ar aciganado, que punha tentações nos olhos dos homens.
Ora, uma noite, parou ali um emproado fidalgo, que se dirigiu sem demora, ao chefe do povoado.
- Maldito frio!... Acendei-me a lareira, depressa!... Depressa!... Não ouvis, velho imbecil?
Mas o outro era velho, de facto. E a muita idade não lhe consentia pressas...
- Vou já meu senhor, vou já... Nós também temos muito frio...
Altivo, arrogante, o fidalgo olhou o velho de alto a baixo, num ar de soberano desdém.
- Que me interessa o vosso frio? Quero apenas que se cumpram as minhas ordens, nada mais... Compreendeis? Sou eu o dono de todas estas terras!
E quedou-se, soberbo, no meio da sala.
Foi então que, atraída pelo volume e pela força das palavras, surgiu Aninhas, a neta do velho chefe do povoado.
- Deixe lá, avozinho. Eu vou tratar de tudo...
E sem olhar o outro sequer, acrescentou num ar de mal contida ironia.
- Este senhor fidalgo, certamente, vem muito apressado... e muito friorento... Coitadinho!
O visitante voltou-se para ela, surpreendido e desconfiado.
- Onde estavas escondida?... Ainda não te tinha visto...
Avançou, sorrindo, a tentar ser lisonjeiro.
- Que lindo palminho de cara tu tens...
E quis fazer-lhe uma festa. Mas a rapariga fugiu-lhe habilmente.
- Tire s mãos, senhor fidalgo... Olhe que pode sujá-las na minha cara...
Ele disfarçou a contrariedade com uma risada.
- Já vejo que és de força... Mas isso agrada-me, pequena... Estou habituado a domesticar as minhas éguas bravas...
Aninhas fingiu que não ouvia. Limitou-se a apontar para as chamas que começavam a crepitar.
- Pronto... A lareira já está acesa, senhor fidalgo... Pode chegar-se, para se aquecer...
Esquivou-se de novo à aproximação dele, e aconselhou, num tom meio sério, meio gaiato:
- Cautela com o fogo, senhor fidalgo, cautela...
Espicaçado no seu brio, o altivo e desdenhoso fidalgo deixou-se ficar por ali mais uns dias, cortejando a bela e esquiva Aninhas.
- Posso fazer de ti uma rapariga rica e feliz...
A rapariga riu-se:
- Ora, feliz já eu sou... E rica não preciso de o ser...
E ele aproximou-se mais e segredou-lhe:
- E se eu te raptasse... se fugíssemos para o meu palácio em Lisboa?...
Aninhas pôs-se subitamente séria.
- Creio que o melhor é não tentar, senhor fidalgo...
O fidalgo empertigou-se:
- Falarei então com o teu avô... Ele será mais compreensivo... e mais esperto do que tu, concerteza!
A rapariga encolheu os ombros. De descrença, ou de indiferença mas, o fidalgo não hesitou e abalou, resoluto, decidido a levar por diante a sua vontade.
Enganou-se porém, redondamente. A sua proposta desagradou por completo ao velho chefe do povoado, que chegou mesmo a irritar-se.
- Como? Pois o senhor atreve-se? Não, nós não somos dessa gente que o senhor julga... Oiça bem: a minha neta só casará com quem ela quiser... E eu não a troco, senhor fidalgo ou lá o que é, eu não a troco por todo o oiro do mundo.
Arfando de emoção por ter ido tão longe nas suas palavras, o velho chefe terminou com um convite bem explícito:
- Porque não se vai embora daqui, senhor fidalgo?... Quanto mais depressa melhor!
O outro voltou a encher-se de soberba ofendida. Endireitou-se, muito solene e a sua voz esganiçou-se, de raiva:
- Pois então escuta, velho idiota: hoje mesmo, tu e a tua neta sereis expulsos destas terras, que são minhas... Vós é que vos ireis embora! Não vos quero ver mais na minha frente!
O velho percebeu que se excedera e que ficaria a perder pois o outro, além de mais forte e poderoso, já só tinha pensamentos de vingança.
Num reflexo de medo, exclamou com voz trémula:
- Oh, senhor!... Que será da minha neta e de mim? Para onde iremos nós? Não leveis tão longe a vossa crueldade.
Ao fidalgo enfurecido, tudo lhe parecia insulto e, ao ouvir a palavra crueldade, a sua fúria cresceu e deu um safanão no velho que caiu por terra mas, não contente com isso e para poder saciar a sua raiva ainda acertou nas costas do velho com o seu chicote.
Aninhas, atraída pelo barulho entrou e, ao ver esta cena, abriu os olhos de espanto, de piedade mas, ao mesmo tempo de ódio.
- Ah, fidalgo vilão, haveis de pagar caro a vossa ruindade!
Mas, desta vez, o fidalgo voltou-lhe as costas sem a olhar sequer. E as suas ordens soaram enérgicas e definitivas:
- Quero que esta gente abandone as minhas terras... hoje mesmo!... O velho, a rapariga e todos os seus companheiros. Não os quero ver mais aqui!... E se for necessário, empregar a força para os fazer partir.
Não foi necessário usar de violência. Todos abandonaram as velhas casas, nesse mesmo dia... Andaram muito, muito, segundo se diz, passaram fome e frio mas não renunciaram.
Um dia chegaram perto da Ermida de Nossa Senhora das Neves, estavam exaustos e, de comum acordo, resolveram ficar ali porém, outra calamidade lhes surgiu: uma praga de formigas!
O velho chefe, cada vez mais adoentado, foi o primeiro a confessar o seu desânimo.
- Oh, avozinho, não perca a fé!... Deixe lá. Temos de reagir, é preciso continuar a luta!
E voltando-se para os outros:
- Não podemos ficar aqui... Temos que procurar outro local. Desta vez, não seremos nós a procurar o local que nos interessa... Deixemos essa missão às nossas vaquinhas... Onde elas se sentirem bem, aí nós ficaremos para sempre!
Ao soarem as avé-marias na ermidinha distante, soltaram as vacas e deixaram-nas ir, à vontade pelos campos fora...
Conta-se que foi Aninhas a primeira a chegar ao local onde as vacas pastavam tranquilamente.
- Venham todos! Isto é magnífico... Parece um céu aberto!... Vejam como as nossas vaquinhas estão contentes... Sabem porquê? Porque aqui as formigas são bem poucas... E qualquer destas formigas, como podem ver, mal pica...
No meu do contentamento geral, a voz do velho chefe, que todos respeitavam, ergueu-se segura e profética:
- Pois já que assim é... esta nossa terra há-de ficar a chamar-se Malpica!

E desse modo nasceu na Lenda e passou à História a pitoresca e bonita aldeia da Beira baixa, que primeiramente se chamou apenas Malpica - e agora e chama Malpica do Tejo.
E consta ainda, na memória do povo, que o tal fidalgo atrevido e enfatuado veio a acabar de morte horrorosa, mordido e envenenado por umas formigas terríveis, que ninguém chegou a saber de onde tinham vindo...

30 de novembro de 2008

Lenda de Almaceda

Lendas de Portugal, segundo Gentil Marques.
aqui surge uma lenda estranha e impressionante. Estranha, pela sua própria concepção que é muito diferente de outras histórias do género, impressionante por evocar o mundo do sobrenatural, sempre tão próximo e tão afastado do nosso pensamento.
Escutei esta história quando era pequenito e irrequieto, numa noite de tormenta. A certa altura, nem sei porquê, disse que tinha visto uma caveira a espreitar pela janela, iluminada por um relâmpago. Foi o suficiente para que a velha criada, a Maria do Rosário, começasse a tremer e a benzer-se e fosse, numa corrida fechar a janela. Depois, tremendo sempre e benzendo-se, contou-me a história que eu vou tentar reproduzir. A história da sua terra...

Há muitos, muitos anos, onde hoje fica situada a freguesia de Almaceda, existiam apenas, enormes extensões despovoadas. E por ali costumava correr no seu cavalo favorito, um fidalgo de nome Rodrigo - jovem, rico mas bastante aventureiro. Este fidalgo já não tinha os seus pais e vivia com sua irmã, D. Madalena, numa casa senhorial, rodeados de criados. Tudo, porém, o aborrecia excepto aqueles passeios pela manhãzinha ou ao entardecer, nos dias em que as chuvas não vinham alagar os campos. E, quando o tédio começava a incomodá-lo fugia para a Corte ou para onde pudesse divertir-se e gastar o seu dinheiro...

Certa manhã de Março, mal acabara o sol de surgir no horizonte, D. Rodrigo e D. Madalena montaram a cavalo e saíram para o seu habitual passeio. Ainda não estavam longe de casa quando, de súbito, o fidalgo estacou a montada, olhando fixamente um ponto. D. Madalena, apercebendo-se de que seu irmão ficara para trás, parou também o cavalo e perguntou curiosa:
- Que estás a ver?
- Ou eu estou ainda a sonhar - responde o irmão - ou junto àquele arbusto está uma caveira!
- Rodrigo! Que ideia a tua! Não brinques com essas coisas!
- Não estou a brincar. Ora repara! Vês... além?
O coração da jovem bateu apressado.
- Sim... Parece que, na verdade...
D. Rodrigo tornou-se brincalhão.
- Vamos! Coragem!... Desce do teu cavalo e vem comigo cumprimentar a caveira!
- Rodrigo! Por favor! Tem mais respeito pelos mortos!
- Respeito? - disse D. Rodrigo rindo - Queres ainda mais respeito do que estou a demonstrar? Chegamos ao apuro de interromper o nosso passeio, para lhe dirigir um cumprimento!...
- Rodrigo! Não gosto dessas brincadeiras, já te disse!
- Grande medrosa! Nem pareces minha irmã! Porque tremas assim? É apenas uma caveira que ali está!
Olhando de soslaio, Madalena inquiriu a medo:
- Mas donde teria vindo?
D. Rodrigo soltou uma gargalhada.
- Minha tonta! Queres saber donde veio aquela caveira?... Do cemitério, com certeza! Aquilo por lá deve andar muito aborrecido e ela resolveu dar um passeio, como nós!
- Rodrigo! Não brinques mais!
- De que tens medo? Aquilo são ossos do corpo humano, nada mais.
- Bem sei. Mas devemos ter respeito por eles... Vamo-nos embora! Não me sinto bem aqui...
- Pois vamos! Antes, porém, de abandonarmos o local, manda a etiqueta que desejemos a esta caveira um bom dia...
- Rodrigo! Por favor!
O Tom suplicante da irmã irritou-o. E resolveu contrariá-la, continuando em tom de mofa:
- E já agora... se, na verdade, a caveira saiu do cemitério por estar aborrecida... devo lembrar-lhe que, às vezes, também estou aborrecido... E, como resido aqui perto, tenho muito prazer em convidá-la para jantar, hoje, comigo!
Madalena tapou o rosto com as mãos, numa crise de choro.
- Que heresia, Rodrigo! Que heresia!
E esporeando o cavalo, a jovem amazona voltou para casa, deixando atrás de si as gargalhadas impertinentes do irmão, que ria do seu pânico...

Contudo ainda a donzela galopava à vista, quando aos ouvidos de D. Rodrigo soou uma voz cava e pausada, vinda não se sabia de onde:
- Cavaleiro! Não quero de forma alguma desapontar-te... Se isso te diverte, podes estar certo que, esta noite, não esquecerei o teu convite...
O jovem fidalgo olhou em volta. Ninguém, além dele próprio e da figura vaga da irmã que continuava galopando, a perder-se na distância...
O riso morreu-lhe na garganta. Seria uma alucinação dos seus sentidos? Sentiu-se inquieto. Estava já arrependido da sua brincadeira macabra. Bem lhe tinham recomendado mais respeito pelos mortos...

Conforme reza a história, D. Rodrigo ficou-se ainda uns momentos a olhar a caveira no solo. Sem voz. Sem gestos, De súbito, montou o seu cavalo e galopou em direcção ao mosteiro mais próximo, onde contou o sucedido. Os frades julgaram que ele não estaria no seu juízo perfeito e, apenas lhe deram uma pequena cruz para colocar no peito, pois isso o livraria dos ataques do Demónio.. mais reconfortado, D. Rodrigo voltou ao solar onde a irmã o esperava, transida de pavor.
- Tardaste tanto! São quase horas de jantar e eu morro de medo!
desta vez ele não brincou.
- Sossega! Tudo correrá bem. Trago comigo esta cruz dada por um dos frades do mosteiro...
- Ouve, Madalena! Se alguém estranho vier jantar hoje connosco, teremos de o receber como bons anfitriões. Já mandei colocar mais um talher na mesa. E avisei o nosso criado José de que a visita esperada hoje, vai causar-lhe grande pasmo.
A jovem olhou o irmão, num misto de assombro e medo
- Tu... tu pensas que, na verdade... alguém estranho virá aqui?
Ele acenou com a cabeça, afirmativamente, deixando a irmã mais trémula.
- Vai para o teu quarto. hoje dispenso-te ao jantar.
Madalena agarrou-se a ele e disse-lhe:
- Nem que morra de medo, hei-de ficar contigo! Não te deixarei sozinho!
Umas pancadas fortes na porta da entrada, interromperam a conversa.
- Aí está a nossa visita! É pontual!
- Benze-te Rodrigo! Pelo sinal da Santa Cruz, livre-nos Deus, Nosso Senhor, dos nossos inimigos...
Um grito do criado José interrompeu a oração de Madalena e logo uma voz cava, soturna, se fez ouvir.
- Diz a teu amo que sou o seu convidado desta noite.
tentando uma segurança que não sentia, o dono da casa ordenou:
- Entre, por favor! Tem o seu talher junto ao meu. Como vê... esperava-o!
E diz z mesma história remota que um vulto sem rosto entrou pelo salão. D. Madalena caiu numa cadeira. D. Rodrigo chamou a si todas as suas forças para se mostrar sereno.
- Queira sentar-se...
Mas a voz cava e soturna voltou a fazer eco no salão:
- Não vim aqui para cear contigo neste palácio. Vim apenas buscar-te!
D. Rodrigo empalideceu.
- Não compreendo...
- Quero que me acompanhes à minha morada.
- E... onde mora?
- Muito perto da Igreja. Vem comigo. Sou eu, agora, quem te convida. Preciso falar-te!
Reunindo todas as forças, D. Matilde pediu:
- Não vás, Rodrigo! Pode ser uma alma perdida!
A voz cava soou, de novo, mas desta vez num tom zombeteiro:
- Acaso terás medo, jovem fidalgo? Tu, o valente aventureiro de tantas noites de orgia?
- Meu irmão! Manda-o embora! Manda-o com Deus!
Mas D. Rodrigo sentiu que não podia fugir. Que não devia fugir. Que não queria fugir. Colocou a sua capa sobre os ombros e saiu, deixando a pobre Madalena chorando e cheia de medo...

Quando a porta do palácio se fechou sobre os dois vultos, o frio cortante da noite veio bater no rosto de D. Rodrigo. Não havia luar. Os gritos das aves nocturnas ouviam-de de vez em quando, soando como alerta. O jovem fidalgo tinha um peso enorme no peito, mas tentava não mostrar medo.
Começaram a andar. O vulto sem rosto à frente. D. Rodrigo um pouco atrás. Nem uma única palavra trocaram pelo caminho. Durante a caminhada, o jovem recordava o seu passado. Passado breve mas cheio de nódoas. E diz-se que o jovem D. Rodrigo, nessa hora, prometeu a Deus modificar-se, se não lhe acontecesse mal algum...

Chegados ao portal da Igreja onde apenas se adivinhavam as cruzes do cemitério, D. Rodrigo, involuntariamente, estacou. Então o vulto sem rosto voltou a falar:
- Entra na Igreja comigo! Conseguimos ser pontuais.
Efectivamente, no relógio da torre batiam pesadas e soturnas doze badaladas.
O jovem fidalgo voltou a hesitar. Mas já o vulto sem rosto gritava na noite escura:
- Entra! Não há tempo a perder! Esperam-me lá em baixo e já sabem que vem comigo um companheiro.
Os pensamentos chocaram-se no cérebro de D. Rodrigo. A fim de ganhar tempo, D. Rodrigo perguntou:
- Para onde me leva?
Então soou uma gargalhada. gargalhada horrível, lancinante que se ficou a repercutir no espaço. Depois, o vulto falou de novo, enquanto empurrava suavemente, o jovem fidalgo, obrigando-o a entrar na Igreja deserta:
- Vais conhecer o meu palácio. Vês esta lousa aberta? É a minha morada... Vamos, desce!
O moço fidalgo compreendeu que tinha que reagir. Estava à beira do abismo. Revoltou-se enérgico, juntando os restos de coragem:
- Para que hei-de descer?
- Tens medo?
- Não! Quem foi sepultado na igreja não pode ser uma alma penada!
Segunda gargalhada estridente fez fugir os pássaros nocturno que lá se tinham refugiado.
- Nessa parte é que reside o teu engano! O teu e o dos que me sepultaram. Julgaram-me bom em vida... Mas só Deus conhecia os meus grandes erros. Por isso Ele me condenou!
- Condenado?
- Sim! Agora já que troçaste de mim, quero que desças para saberes como é a minha ceia!
- Não vou! Deus proíbe-me que me enterre vivo.
- Se não fosse a cruz que trazes ao peito, eu te obrigaria a descer! E lá em baixo, sofrerias comigo o fogo da redenção!
Para si próprio, o fidalgo murmurou uma prece em que punha toda a sua alma.
- Que Deus me acuda!
Instantaneamente, o vulto sem rosto pareceu acalmar-se. A sua voz soou com mais brandura:
- Fui na terra um aventureiro como tu, sem respeito pelas coisas sagradas. Um homem fútil e leviano. Só fazia caridade por ostentação. Que a minha pena te sirva de alerta! cada vez que encontres algum corpo sem vida, lembra-te da alma que o abandonou, pois ela poderá precisar das tuas orações. Em vez de escarneceres... reza! Quando se te depare um osso humano, enterra-o com carinho em terreno sagrado, orando pelo eterno descanso daquele a quem pertenceu! Que a tua alma ceda à caridade e à compaixão pelos mortos! Que a tua alma ceda à caridade que estou a transmitir-te, pois começo a ver luz no meu caminho! Alguém está orando por mim. Alguém, neste momento faz promessas para me libertar!... É tua irmã! Por isso te dou um bom conselho: Vai-te e não esqueças quanto te disse, se quiseres também salvar-te! Que a tua alma ceda ao teu orgulho que foi teu apanágio, para que nela ocupe lugar o amor ao próximo!

A voz cava e soturna deixou de se ouvir. O vulto sem rosto desapareceu pela lousa aberta. Na Igreja o silêncio era pesado. Então, D. Rodrigo começou a correr para casa. A correr e a rezar. E a repetir, no meio das suas orações, numa estranha obsessão:
- Que a tua alma ceda! Que a tua alma ceda!
Chegando à porta do solar, D. Madalena, ali o esperava, sempre a rezar, caiu-lhe nos braços, chorando de comoção.
- Graças a Deus! Graças a Deus voltaste!
Como ele amiúde repetia a mesma (Que a tua alma ceda!) o povo das redondezas começou a tratá-lo por Almaceda.
Tempos depois, já refeito do choque, reorganizou a sua vida. Distribuiu parte das suas terras pelos que vinham ao solar pedir abrigo e, forem essas pessoas vindas das mais variadas terras que resolveram começar a chamar àquelas terras "Terras do Almaceda", mais tarde apenas Almaceda, em homenagem àquele fidalgo que tanto os ajudava.

22 de novembro de 2008

Lenda da água que beba dela

Lendas de Portugal de Gentil Marques.
Beatriz bordava, sozinha na pequena sala.
Lá fora, a atmosfera pesada punha ameaças de tempestade no cérebro e no coração das gentes. Uma inquietude estranha fazia agitar com mais rapidez do que seria necessário o braço da jovem Beatriz conduzindo a agulha com mestria. Mas o ritmo do bordado seguia com o seu pensamento. Quanto tempo teria de estar privada de ver e ouvir o seu bem amado? Amava em silêncio, porque tudo ali, naquela casa, tinha de ser feito em silêncio. O pai achava-a muito nova para pensar em casar. A madrinha, que a criara desde pequena após a morte de sua mãe, educara-a sim, mas não lhe dera amor! Quanto ao seu pai, embora sempre lhe testemunhasse grande carinho, tinha os seus múltiplos problemas e achava que uma donzela já podia considerar-se feliz se tivesse um palácio, bom nome, fortuna e um pai que a amasse...
Tanto, na verdade, ela possuía. Contudo... não se sentia feliz!
Quando, certa tarde, vira Pedro de Trava pela primeira vez, os olhos de ambos gritaram logo uma jura de amor.
Sim, Pedro amava-a também! Apenas esperava o momento que ela encontrasse propício para a pedir ao pai. Para estas coisas, nem todas as ocasiões servem. Beatriz bem o sabia. Por isso, aquela espera em silêncio. Um silêncio que a atormentava.
A porta da salinha de estar abriu-se quase sem ruído. Mas Beatriz pressentiu alguém entrar e olhou. Era D. Ximena, a madrinha. Tinha algo de fulgurante no olhar e Beatriz amedrontou-se. Numa voz que procurava ser afável, D. Ximena perguntou:
- Beatriz... Que tens? Porquê tanto afã no teu bordado?
Beatriz tentou sorrir.
- Trabalho para não me aborrecer.
D. Ximena sorriu também. Um sorriso estranho, que fez paralisar o braço de Beatriz. Tentava ler no íntimo daquela que a tinha criado mas que não aprendera a amar. A dama olhou-a também, com olhar penetrante. E a sua voz soou falsa aos ouvidos da donzela:
- Beatriz, sei que a minha presença não te basta... e o teu pai tem vários assuntos que lhe roubam o tempo. Daí esse tédio a espicaçar-te os nervos. A tua idade é perigosa... Estás, precisamente, na idade de amar...
D. Ximena calou-se. Mas o seu olhar continuava fixo no rosto de Beatriz, que se sentiu corar. Para disfarçar a sua confusão tentou dizer qualquer coisa.
- Senhora, as donzelas como eu quase não sabem se devem ou não amar... se é que isso é coisa dominável.
A dama então sorriu abertamente.
- Nada mais dominável que o amor!
Beatriz olhou-a de novo, intrigada. A madrinha continuava a sorrir. Parecia satisfeita. Pousou-lhe uma das mãos no ombro.
- A tua hora chegou, Beatriz!
O coração da jovem bateu forte. Mas tentou mais uma vez disfarçar o tumulto da sua alma.
- Meu pai não será talvez da mesma opinião...
D. Ximena passou-lhe os dedos pelos cabelos, gesto que Beatriz não se lembrava de jamais lhe ter notado.
- Conheço a opinião de teu pai. Por isso estou falando contigo desse assunto, para te dizer que podes contar com a minha ajuda...
Beatriz olhou a madrinha bem de frente, receosa de que fosse ilusão ou pura brincadeira. Notou-lhe uma estranha expressão de triunfo, mas confundiu-a com a de sincera alegria. Levantou-se e tomou-lhe a mão, num gesto quase infantil.
- Ai, minha madrinha, como estou contente! Pedro é bom... valente... nobre...
Num gesto seco, D. Ximena sacudiu a mão de Beatriz. A sua voz era agora áspera. O sorriso desaparecera-lhe.
- Pedro? ...
Aturdida, Beatriz murmurou, já a medo:
- Sim ...
D. Ximena baixou a voz, sibilando quase:
- Referes-te... ao conde Pedro de Trava?
Cada vez mais assustada, Beatriz concordou:
- Sim ... refiro-me a Pedro de Trava ... Não era a Pedro que desejáveis ajudar?
A resposta veio breve e seca:
- Não!
- Então ... não compreendo o vosso desejo de ajuda ... Como quereis ajudar-me?
- Vou explicar-te: é meu intento casar-te com o meu sobrinho, o nobre Raimundo de Toscana. E casar-te quanto antes!
Beatriz olhou-a com horror.
- Não, a senhora não fará isso! ... Nem sequer conheço o vosso sobrinho ...
D. Ximena encolheu os ombros:
- Terás tempo de sobra para o conhecer.
Beatriz mordeu os lábios, para evitar a fraqueza de chorar. Queria mostrar-se forte.
- Meu pai não quer casar-me por enquanto!
D. Ximena encolheu de novo os ombros.
- Não me aflige a vontade de teu pai. Vive agarrado às suas terras e ao seu dinheiro. Mas é tempo de ir pensando no teu dote... que deve ser avultado ...
Beatriz olhou com desprezo a dama que lhe falava. Sentiu-se de súbito fortalecida.
- É então o meu dote que está em causa? ...
O rosto de D. Ximena tornou-se lívido.
- Como ousas falar-me assim? Ouve o que tenho a dizer-te. Não sei quando nem como conheceste Pedro de Trava. Também não me interessam as juras que tenham trocado. Deliberei casar-te com Raimundo e casarás com ele, mesmo que o teu coração neste momento não lhe pertença! Falaremos com teu pai, amanhã de manhã. Quando o sol voltar a nascer, terá mais uma incumbência: anunciar o teu primeiro dia de noivado!
E sem mais acrescentar nem sequer ouvir, D. Ximena saiu da salinha - onde Beatriz ficou, por momentos, como petrificada. Encostou-se depois a um móvel, tentando acalmar o seu espírito em confusão. Mas já a sua dama de companhia corria ao seu encontro:
- Estais bem, D. Beatriz?
A jovem recuperou um pouco mais a lucidez.
- Aproxima-te, Juliana. Preciso de ti! Viste a minha madrinha?
- Sim ... vi-a quando saía ... Ia tão apressada, tão pálida, tão nervosa, que me assustei!
- Ouve, Juliana: ela quer casar-me com o sobrinho, D. Raimundo!
A rapariga abriu os olhos num espanto.
- Aquele que só faz o que ela manda?
- Sim, esse.
- Ó céus! E que havemos de fazer?
- Vai imediatamente ao castelo dos Travas e pede para falares com o jovem conde. Vê lá, não te enganes! Só falarás com Pedro! E conta-lhe tudo.
- Sim, D. Beatriz, assim farei. Mas terei de sair daqui sem ser vista.
- Arranja-te como puderes. E diz mais: é necessário que Pedro venha amanhã de manhã pedir-me a meu pai!

A noite começou a cair lentamente. Beatriz não viu mais a sua dama de companhia. Em dado momento, D. Ximena perguntou por ela. Beatriz sobressaltou-se. E mentiu:
- Foi arranjar-me linhas para o meu bordado. Deve andar por aí.
A dama franziu as sobrancelhas e ficou um momento estática. Depois saiu da sala. Quando voltou vinha colérica.
- Encontrei Juliana, mas justificou sua ausência com o arranjo de um vestido teu... e estava totalmente esquecida das linhas. Para castigo de tanta impostura, vais já para o teu quarto... e hoje não voltarás a ver Juliana.
Beatriz obedeceu sorrindo. Juliana já voltara e o facto de poder agora estar sozinha com os seus pensamentos era para a jovem mais apetecível do que a companhia da velha dama. Ao entrar no quarto, Juliana apareceu-lhe de repente.
- D. Beatriz! Dei o recado e o senhor conde diz para ficardes descansada. Ele virá de manhã falar com o vosso pai.
E, dando meia volta, a rapariga desapareceu nos corredores, veloz como uma gazela.

Beatriz dormiu toda a noite. Como eram longas as noites de espera! Jamais o sol lhe viria a parecer tão preguiçoso. Mas, quando ele chegou cheio de força e de beleza, a inquietude de Beatriz não serenou. Todo o seu pensamento estava preso na decisão do pai. Se ao menos o tivesse visto... lhe tivesse falado! Mas D. Ximena afastara-a dele. Propositadamente, bem o sabia. Oh! que espécie de mulher era a que fora escolhida para a educar e criar!
O tempo parecia arrastar-se como serpente no chão. Nem D. Ximena nem Juliana apareciam. Teria acontecido alguma coisa à rapariga? Talvez D. Ximena a tivesse castigado, quando se vira em face do outro pretendente à sua mão. E qual seria a decisão do pai? Qual seria?
Foi até à porta para tentar saber o que se estava passando. Porém, a porta estava fechada. A revolta assediou-a. Presa! - pensou. D. Ximena mantinha-a em clausura. Porquê? Porque Pedro de Trava viera, decerto! Daí o seu ódio, o seu desejo de agir mais livremente.
Bateu com os punhos na madeira. Bateu loucamente, como quem deseja fugir ao perigo. Ouviu passos apressados. Depois, a porta abriu-se e o pai entrou, sozinho. Estava visivelmente contrariado.
- Que alarido é este?
Beatriz amarfanhou no peito toda a sua ansiedade.
- Senhor! Queria sair... e a porta não se abria!
- Que ideia! Abri-a sem esforço. Onde está Juliana?
- Ainda hoje a não vi.
- E a tua madrinha?
- Estive sempre só, meu pai.
- Que dia estranho!
Fez uma pequena pausa. Passou a mão pelas barbas esguias e olhou a filha de frente.
- Beatriz! Acabo de receber dois pedidos de casamento para a minha única filha. Dois pedidos... e quase à mesma hora!
O coração de Beatriz batia aflitivamente. Perguntou a medo:
- E... que respondeste, meu pai?
O fidalgo voltou a cofiar as barbas já grisalhas. Sorriu, intimamente satisfeito.
- Respondi um sim à minha maneira.
Foi a vez de Beatriz ficar intrigada.
- Um sim... aos dois?
O pai continuava a sorrir...
- Pois é verdade: um sim aos dois!
Alarmada, julgando não ter ouvindo bem, Beatriz exclamou:
- Mas é impossível!
Uma risada ecoou no aposento.
- Claro que é impossível! Mas nenhum dos teus pretendentes poderá dizer que o excluí! Serão eles os primeiros a desistirem...
Beatriz arriscou:
- Senhor... mas esse processo...
- Que processo?
- De... dizer sim a dois...
O fidalgo riu de novo. Os seus olhos piscos fitaram a filha com malícia.
- Usei um velho ardil.
- Um ardil?
- Ora, estes pedidos de casamento surpreenderam-me bastante. Confesso que não esperava fazer-te sair já da minha tutela. Todavia... se houvesse entre os pretendentes alguém que pudesse portar-se à altura de te merecer...
O fidalgo fez uma ligeira pausa. Beatriz parecia nem respirar. Ele continuou:
- Enfim, livrei-me deles dizendo que cederia a mão da minha filha Beatriz àquele que primeiro desse cumprimento a um destes meus dois desejos: um dos pretendentes, à escolha, teria de colocar sozinho, a cúpula na igreja desta terra; o outro, de trazer a água da levada de S. Romão até à vista deste solar.
Beatriz sentou-se numa cadeira.
- Mas o primeiro é inteiramente impossível!
O fidalgo riu.
- O que elimina já um dos concorrentes! Quanto à levada, não marquei tempo... e até lá...
- Qual deles escolheu a levada?
O fidalgo sorriu com desprezo.
- A tua madrinha exigiu essa cláusula para Raimundo de Toscana. Mas está furiosa comigo. Acha-a abominável!
Riu de novo, alto, não reparando sequer na palidez de Beatriz.
Ela interrogou ainda:
- E... o outro?
- O outro? Oh! É decerto um visionário. Em vez de desistir, agradeceu-me a grande honra que lhe concedia e... aceitou!
Beatriz sentiu o coração bater-lhe ainda mais forte. Mas já o pai lhe passava o braço pelos ombros e a fazia descer até ao salão, dizendo:
- Vamos passear um pouco. Precisamos de ar puro!

Alguns dias passaram. Dias de ansiedade e solidão para Beatriz. Juliana - segundo lhe haviam dito - fora a casa dos pais tratar de um deles que adoecera. E D. Ximena parecia demasiado ocupada com outros assuntos e não encontrava tempo livre para fazer companhia à afilhada. Quanto a Pedro, só na véspera lhe enviara um estranho recado pelo tratador dos cavalos. E o recado repetia-o ela, vezes sem conta: "Só Deus nos poderá ajudar amanhã". Confiava no seu bem-amado. Mas que poderia ele fazer? Esse "amanhã" acabava de chegar e nada de novo vinha até ela.
De súbito, D. Ximena entrou, cortando-lhe os pensamentos. Vinha mais altiva e agreste do que nunca. Foi logo direita ao assunto:
- Beatriz! D. Raimundo começou já a dar provas do seu grande amor por ti! Um fidalgo como ele, cavando, sozinho, a terra dura, para ter direito à tua mão, é na verdade enternecedor!
Beatriz replicou:
- Pelo menos, dá provas de uma cega obediência!
A dama olhou-a empertigada:
- Obediência?...  A quem?
Altiva, a jovem respondeu:
- A vós... minha madrinha!
D. Ximena falou com mais rispidez:
- Pensas então que ele age por obediência? Enganas-te. Ele ama-te, Beatriz! Enquanto o outro nada faz para te merecer!
Beatriz sentiu-se ferida. Revoltou-se.
- O outro, como a madrinha diz, irá em breve à nossa igreja colocar a cúpula, na presença de fidalgos amigos da nossa casa.
A dama alarmou-se:
- Como o sabes? Quem te disse essa patranha?
- O ,eu coração que não falha!
- Louca! Colocar a cúpula! Bem sabes que isso é humanamente impossível. teu pai exigiu duas provas para que só um fosse beneficiado. E o primeiro a escolher a única realizável foi o meu sobrinho e teu noivo!
- A levada ainda vem longe - respondeu Beatriz.
- Mas ele trabalhará sem descanso! E chegará aqui! Enquanto o outro, nem hoje nem nunca colocará a cúpula na igreja!
- A Deus nada é impossível! Ele e eu acreditamos que o Senhor nos ajudará... para confundir os ambiciosos!
- Decerto estás louca e ofendes-me! Esquece esse homem... porque já é tarde para pensares nele!
- Deixai-me só! Preciso orar!

No corredor surgiram então passos apressados. As duas mulheres calaram-se, olhando ansiosamente a porta de entrada. E o velho fidalgo surgiu, com uma expressão de espanto no olhar. Dirigiu-se à filha:
- Beatriz! O conde Pedro de Trava acaba de colocar a cúpula na igreja, perante numerosa assistência! O caso não tem precedentes! Dei-lhe a tua mão!
A jovem caiu nos braços do pai e D. Ximena, praguejando entre dentes, saiu espavorida.
Sós, pai e filha ficaram assim largo tempo abraçados. Depois, meigamente, ele falou:
- Como poderia supor que amavas tanto esse homem e que ele te amava tanto? Dei-lhe para realizar um cometimento que julguei impossível. Mas ele, depois de orar largo tempo, colocou sozinho a cúpula, sem demonstrar grande esforço.
- E onde está Pedro?
- Na igreja. Voltou a prostrar-se de joelhos. Mais logo será recebido aqui, com as honras que ele e tu merecem. Só espero que sejas muito feliz!
- Serei sim, meu pai. Tenho a certeza.

Entretanto, D. Ximena corria como louca direita à levada que já vinha próxima. Ao chegar junto ao sobrinho, gritou-lhe com fúria:
- Que fazeis, imbecil!
Ele suspendeu o seu árduo trabalho e tentou explicar.
- Falta já pouco! Dentro de algumas horas estarei à porta do solar! Vede como corre a água!
- Pois beba dela, seu pateta! Beba dela porque o outro já colocou a cúpula!
Raimundo sentou-se com desânimo no próprio chão molhado. Alguns populares riam à socapa e repetiam a frase de D. Ximena.
- Que beba dela!... Que beba dela!...
E assim,andando de boca em boca, nasceu o nome de BOBADELA à pitoresca povoação pertencente ao concelho de Oliveira do Hospital.

NOTA:- Não encontrei em lado nenhum explicação de modo como Pedro de Trava colocou SOZINHO a cúpula no topo da igreja.
Quando li esta lenda lembrei-me de uma Gata Borralheira à portuguesa...

30 de outubro de 2008

Lenda da Brasília

Lendas de Portugal de Gentil Marques
Quando hoje em dia se fala em Brasília, todos pensam imediatamente na nova e esplendorosa capital do Brasil, autêntico milagre de iniciativa e de esforço.
Mas a história que vou narrar não diz respeito à Brasília monumental dos tempos actuais e sim a uma pequena terra do norte de Portugal, que também se chama Brasília. E o mais curioso de tudo é que esta Brasília portuguesa é já muito velhinha... Fica lá em cima, no concelho de Vila Verde, na freguesia de Escariz (S. Martinho), distrito de Braga, em pleno coração do Minho...
Pois foi devido a uma circunstância fortuita que encontrei os vestígios da história desta Brasília bem portuguesa, a qual vou evocar aqui, precisamente, como saudação fraterna à Brasília de 1960.
Tudo começou há muitos e muitos anos já, talvez numa manhã fria e ventosa, quando os lobos uivavam na serra e o céu se tingia de ameaças de tormenta.
Nessa manhã invernal, subindo a encosta batida pelo vento, destacavam-se dois vultos lutando contra a Natureza. Um homem e uma mulher. Ambos procuravam alcançar a casa onde viviam, ali, nos arredores então quase desertos de Vila Verde.
A tormenta mal deixava que falassem. Mas falavam, apesar de tudo...
- Estamos já próximo... Mais um esforço, mulher!
Ele procurou ampará-la dando-lhe alento para o resto da jornada. Porém, ela parecia demasiadamente débil para aguentar essa arrancada final.
- Tenho medo de não poder ir mais longe... Sinto-me sucumbir...
O braço forte do homem enlaçou-a.
- Vamos, eu ajudo-te... Uma pequena corrida e estaremos em casa...
Mais num sopro de alma do que pelas próprias palavras, ela assentiu:
- Está bem, homem... seja o que Deus quiser!
E Deus quis, segundo conta a lenda. Conseguiram alcançar a casa, vencendo o vento violento e cortante.
Quando a porta bateu atrás deles, deixando o vento lá fora, a mulher caiu extenuada sobre um banco de madeira.
Arquejando, no saldo do esforço feito, o homem olhou-a e mordeu os lábios grossos. Por remorso ou por piedade. Só ele o sabia.
Depois, atirou-se também para cima de um banco tosco.
- Uff! Até que enfim... Cheguei a pensar que desta vez não chegaríamos...
Houve uma pausa. Pausa cortada apenas pelo ranger da madeira e das telhas, ao sabor da ventania louca que continuava cavalgando pela serra.
Quase chorosa, a voz trémula da mulher fez-se ouvir então:
- Que direi eu?
Parou. Respirou fundo. E repetiu, como que um eco, para si própria:
- Que direi eu?
Os seus olhos, ainda doridos, voltaram-se para o marido.
- Foi para isto que me trouxeste lá da minha terra distante?
Ele encostou-se molemente à mesa de pinho. E a sua voz soou também com um certo acento de moleza:
- Que queres, mulher? Nem tudo pode sair à medida dos nossos desejos...
Encolheu os ombros, a sacudir as suas culpas.
- Eu bem te disse, quando casámos: hei-de voltar a Portugal, à minha terra e lá teremos o nosso lar...
Mas a mulher, de súbito, encontrou forças para ironizar:
- Bonito lar, não há dúvida... Um casebre... Um bocado de terra que não dá nada... e este tempo horrível, pavoroso... Um inferno!
Agora, a ironia já sabia a lágrimas. O homem tentou contemporizar:
- Ora, Deus há-de ouvir as nossas preces. Depois da tempestade virá a bonança, acredita!
Ela abanou a cabeça. Tristemente. Desesperadamente.
- Quando estivermos mortos, não é verdade?... Ou, pelo menos, quando já não pudermos lutar...
De novo o silêncio. Depois, o vento e os lobos lá fora. Uivando.
O homem ergueu-se. Andou uns passos para a companheira. Hesitante.
- Tem fé, mulher, tem fé como eu!... Nunca te enganei... Quando tive a sorte de te encontrar lá no Brasil, não te prometi nada que não te tivesse dado.
Foi a vez dela o olhar bem de frente. E ergueu-se, também, como uma sombra.
- Achas que me tens dado tudo o que me prometeste?...
teve uma risada curta e sarcástica.
- Onde está a terra fértil?... Onde está a nossa linda quinta, no Minho?... Onde está a nossa fortuna?...
Calaram-se os dois.
Aquelas palavras da mulher ficaram a doer na alma do marido. No resto do dia. Toda a noite. E nos dias seguintes.
Por fim, resolveu-se. Foi procurar o velho e bondoso padre da freguesia.
- Senhor Prior, quero que seja o senhor o primeiro a saber: eu vou voltar ao Brasil.
Os olhinhos piscos do padre abriram-se em parêntesis de espanto.
- Que dizes, homem? Que ideia é essa?
O homem torceu as abas do chapéu nas mãos rudes e nervosas.
- A minha mulher tem razão, senhor Prior... Há uma coisa, pelo menos, que lhe prometi e ainda não lhe dei: a fortuna... E essa... essa só a poderei encontrar no Brasil!
- Mas vais aventurar-te outra vez em tal viagem?
O homem respirou forte. Forte e fundo. Como se tivesse menos dez anos:
- E isso que tem, senhor Prior? Aproveito o próximo embarque... Conheço aquilo como as minhas mãos... Voltarei rico em pouco tempo.
Arreganhou os dentes num sorriso. Sorriso de desafio e de confiança.
- Rico, senhor Prior!
O velho padre compreendeu que de nada valia tentar dissuadi-lo. Limitou-se a dizer:
- Faz o que achares melhor... e que Deus te proteja!
Depois, traduziu em pergunta uma ruga de preocupação que se lhe vincara na testa:
- Ouve lá... E com respeito à tua mulher?...
A resposta veio pronta como que estudada e decorada há muito tempo:
- Ela ficará aqui, senhor prior, à sua guarda.
A ruga de preocupação multiplicou-se em muitas outras rugas.
- À minha guarda?
O homem buscou uma explicação ao plano que forjara em noites de insónia:
- Sim! É como quem diz: à guarda de Deus!... O senhor Prior a livrará de maus olhados... e de más companhias. Que esta gente, quando a sentir sozinha não a deixará sossegada. Mas posso confiar em si, senhor Prior, não é verdade?
O velho padre gostou desse tom de franqueza. Sorriu docemente.
- Podes sim, meu filho!
O homem levantou-se de olhar iluminado. Era o princípio da sua vitória. E tinha aleluias na voz quando voltou a falar:
- Dê-me a sua bênção, senhor Prior... Até à volta, e que Deus me proteja!
Tal como dissera, o homem seguiu de novo o caminho da aventura... Nesses tempos já longínquos chamavam-se "brasílios" ou "brasileiros" àqueles que iam tentar a sorte no Brasil e regressavam depois, às suas terras. O nosso homem era um desses "brasílios".
E, por isso mesmo, a sua abalada deixou toda a gente das redondezas a falar no caso, tecendo os mais variados comentários pois não era habitual voltar à grande aventura, pela segunda vez...
Entretanto o tempo foi passando, correndo, fugindo. E, tal como nos conta a velha história quase desfeita pelos séculos, não voltou a haver notícias do homem que voltara ao Brasil. Mais cansada, mais triste, mais desiludida, a mulher queixava-se amargamente:
- Senhor Prior, que posso eu fazer aqui, sozinha... se meu marido me abandonou?
Que podia ele responder , senão o que lhe ditava a própria consciência?...
- Não te abandonou, minha filha... Foi apenas tentar conquistar a fortuna que te prometera.
- Para quê? Sim, para quê?... A fortuna estava aqui ao nosso alcance... Ele tinha razão... Esta era a terra que Deus guardava para nós... Mas agora... agora... que posso eu fazer, senhor Prior?
De mãos unidas, como em oração, a pobre mulher erguia-se diante do velho padre. O sacerdote percebeu que a hora era decisiva. Ou ela se salvava ou ela se perdia. E deliberou atacar o problema de frente...
- Tens de tratar da terra como se ele estivesse a teu lado!... Tens de criar a quinta com que ele sempre sonhou!... Sabes lá, minha filha, se o teu marido não voltará um dia?
palavras oportunas e justas. Cada uma delas acertou no alvo. E o alvo era o coração.
- Está bem, senhor Prior! Assim farei!
A partir de então a mulher atirou-se valentemente ao trabalho. Das fraquezas fazendo forças. Transformando fragilidade em ousadia, ganhando entusiasmos com o próprio esforço.
Naquele lugar quase deserto e abandonado, começou a surgir uma quinta maravilhosa, como que abençoada por Deus!
Porém, a mulher tudo fizera por uma inspiração febril. E quando a febre se esgotou diante da obra consumada, ela ficou mais gasta e mais triste, e mais soturna do que sempre.
Lentamente, voltou ao encontro do velho padre.
- Senhor Prior, creio que cumpri o meu dever...
O sacerdote (também mais gasto, e mais triste, e mais soturno) elevou os olhos ao céu.
- Deus te abençoará minha filha!
Mas ela não procurou delongas. Foi direita ao fim:
- Creio que não poderei durar muito mais tempo, senhor Prior... Sinto-me esvaída... Acredite!... talvez me falte o calor do amor...
Respirou fundo a recobrar alentos, e prosseguiu:
- Sim... Que vale uma espera destas, sem marido?
Parou, travada por um pensamento qualquer. E sorriu suavemente. E confidenciou, num murmúrio:
- Quer saber uma coisa, senhor Prior?... Uma destas noites, sonhei com o meu marido... Vi-o tal e qual como no dia em que ele abalou... Mas já não estava na Terra... Tinha subido ao Céu...
Olhou o padre. Ele nada disse. Então a mulher elevou a voz:
- Eu também me sinto morrer, senhor Prior! E peço a Deus que me junte de novo ao meu marido!
Passou entre ambos um pequeno silêncio. Silêncio feito de saudade e de evocação. E o velho padre disse, pausadamente:
- Decerto que sim, minha filha... A tua vida exemplar, toda devotada ao respeito e ao sacrifício, bem o merece!
Por instantes a mulher ficou inebriada pela bênção. Mas, de seguida, um outro pensamento lhe afluiu ao cérebro:
- E esta quinta, senhor Prior? Este lugar? para que servirá tudo isto, depois de eu morrer?
O sacerdote velhinho cruzou as mãos sobre o crucifixo. Cerrou os olhos e respondeu com toda a força do seu íntimo:
- Servirá para mostrar a tua história e o teu exemplo!
De facto, segundo se conta e eu reconto, depois do sonho que tanto a impressionou, a mulher não durou muito mais tempo, como ela própria supusera. E dizem que morreu sorrindo. Sorrindo e de olhos em êxtase, murmurando:
- Lá está ele... Ele, o meu marido... Vou para junto dele... Para junto do meu brasílio... pois eu sou a sua brasília!
E toda a população dos arredores foi ao último adeus. Nesse dia, a quinta parecia ainda mais bela e maior.
Embora muito velho e vacilante, o senhor Prior não quis faltar. De mistura com as flores que depunham na campa da mulher, ele deixou cair também uma rosa desfolhada pelos dedos trémulos. E disse, com o que lhe restava da eloquência habitual:
- Sim, meus filhos! Vocês que tanto falaram do brasílio, quando ele voltou à aventura, só têm agora que falar bem da mulher do brasílio. Peço-lhes, meus filhos, que este novo lugar, em homenagem ao esforço de quem o criou, fique a chamar-se, para sempre, tal como vocês já lhe chama  - o lugar da Brasília!
Na verdade, lá está desde há séculos, na freguesia de Escariz (S. Martinho), no concelho de Vila Verde, do distrito de Braga, em pleno coração do Minho, o Lugar da Brasília ou apenas Brasília, como se designa hoje em dia.
E quem sabe se foi daí que nasceu precisamente a ideia do anónimo deputado paulista anterior ao projecto de José Bonifácio de Andrada e Silva que realmente se transformou em realidade esplendorosa no ano de 1960?...
Quem sabe?

24 de outubro de 2008

Lenda da Terra da Galega

Esta imagem pertence à Igreja Matriz da Golegã e foi conseguida por Sérgio Moura e recolhida em Olhares.com
Lendas de Portugal de Gentil Marques.
Ali, no meio da planície ribatejana, apenas a cinco quilómetros do rio Tejo, estende-se a pitoresca e curiosa vila da Golegã, onde se realiza, todos os anos, a famosa feira de S. Martinho.
Pois a Golegã, a da feira de S. Martinho, possui também a sua história lendária. História que vem das próprias raízes da nossa nacionalidade, tal como o povo conta e assegura. História evocada aqui, como que ao sabor do castiço fandango, alma e poesia de todo o Ribatejo.
Nos princípios de Portugal - reza a lenda remota - a Golegã ainda não existia... Por ali, havia unicamente, um terreno pedregoso e aparentemente inútil. Era a Terra do Demo, como então chamavam a todos esses descampado sem vivalma.
Mas um dia aconteceu que certa mulher, oriunda da Galiza e residente em Santarém, se meteu a caminho para tratar da vida. Era longa a jornada. Longa e penosa. Quando chegou ao local ermo onde hoje se estende a Golegã, pensou decerto o mesmo que pensavam quase todos os caminhantes que por ali passavam, ou a caminho de Santarém ou em direcção a Coimbra. Pensou que seria bom existir ali um abrigo, onde se pudesse descansar um pouco e ganhar novas forças para o resto da jornada.
Era mulher animosa, aquela. Desde criança, na sua Galiza distante, habituara-se a trabalhar e a vencer sozinha.
Olhou em redor, enquanto se retemperava, e voltou a pensar na mesma ideia. Eram terras sem dono, essas terras agrestes e abandonadas. E se ela ficasse ali? E se ela construísse ali uma pequena estalagem onde se abrigassem os viajantes?...
Se assim o pensou, melhor o fez, segundo conta a lenda. Tinha braços fortes e alma de antes quebrar que torcer. Em pouco tempo, a sua venda embora modesta, punha uma nota de vida num local outrora deserto...
A partir de então, os viajantes passaram a bendizer a ideia magnífica e tornou-se, por assim dizer, ponto obrigatório de paragem, no caminho, a Venda da Galega - como desde logo ficou designado aquele local.
A mulher multiplicava-se em esforços e em vontade para atender todos da melhor maneira. E alguns tornaram-se mesmo familiares da casa, de tanto que ali passavam e paravam. Entre eles um fidalgo desenvolto e impertinente, que requeria para si o melhor quinhão da comida e da bebida.
- Eh, Galega, chega aqui... Viste o vinho que me deitaste?
Era mais uma das recriminações do "Senhor Fidalgo". Ela suspirou molemente:
- Ah, senhor Fidalgo... vou já arranjar outro melhor... Desculpe, mas o trabalho é tanto, que mal tenho tempo para ver o que sirvo...
Ele inclinou-se um pouco para a frente e falou-lhe em tom de confidência:
- Ora, do que tu precisas Galega, é de um homem que te proteja... que te possa auxiliar em tudo isto!
Foi a vez do rosto dela se abrir numa risada:
- Onde está esse homem Senhor Fidalgo?
Voltou a suspirar e acrescentou em tom de confidência:
- Eu bem o procuro... mas nunca o encontrei até hoje.
Puxou um banco para junto da mesa e sentou-se pesadamente, sentindo que devia desabafar:
- Sabe uma coisa, senhor Fidalgo? Todos os que se oferecem para casar comigo, o que querem é explorar-me, apanhar o meu dinheiro, que eu ganho com tanto trabalho, com tanto sacrifício!
Voltou a erguer-se e rematou, já em voz mais forte:
- ! Nessa não caio eu... Antes prefiro viver sozinha que mal acompanhada!
Fez-se um pequeno silêncio. Ela já ia retirar-se, de regresso ao trabalho, mas a voz dele soou, fazendo-a parar:
- Pois tu não percebes o que eu digo, Galega? O que tu precisas não é de qualquer desses valdevinos que enchem a tua venda... É de um homem forte, bom, compreensivo... enfim... de um homem como eu!
Desta vez o silêncio foi mais demorado. A mulher ficou com tremores na voz, quando voltou a falar:
- O quê?... O Fidalgo?... O senhor Fidalgo... quer dizer...
Ele resolveu ser mais explícito.
- Quero dizer que posso ser o homem que tu ainda não encontraste!
Sorriu, superior e bonacheirão, e rematou, depois de beber o resto do vinho:
- Pensa bem, Galega!... Sigo viagem e, no regresso, pararei por aqui, para saber a tua resposta.
Andou uns passos para a porta e, quando se voltou, para se despedir, ela ainda estava no mesmo sítio, olhando em frente, como que aparvalhada.
Ele riu, satisfeito.
- Eh, Galega, não faças essa cara... Tudo é possível na vida!
Saiu batendo com a porta. E a mulher encontrou-se a repetir para si própria, baixinho, como que a medo:
- Tudo é possível na vida!
O tempo foi passando... Agora a Galega tinha um pensamento dominante... "Santo Deus! Eu, com um fidalgo por marido... Essa nunca me tinha passado pela cabeça... Portanto, qualquer dia poderei ser marquesa... ou mesmo rainha". E ria, ria perdidamente, esquecida dos que a olhavam sem perceber...
Mal podia ela adivinhar que o tal senhor Fidalgo há muito tempo já amadurecia o plano que só agora pusera em prática.
No regresso da viagem, sobre o tropel dos cavalos nos caminhos, ele gritava para os companheiros, numa moldura de gargalhadas:
- Vocês vão ver rapazes!... A Galega cai-me no papo e é um ar que lhe dá... E com a maquia que ela já juntou, podemos nós fazer muita coisa... Depressa, rapazes, estou desejoso de chegar.
Entretanto, tal como ele próprio dissera, tudo era possível na vida... E assim algo acontecera que viera modificar um pouco os planos da Galega. Dias antes, tinham chegado à estalagem um velho viandante e sua filha. E o velho, de aspecto respeitável e fala insinuante, ao olhar aquelas terras não escondera a sua surpresa e admiração:
- Que lugar admirável! Que grande povoação se fazia aqui!
- Ora, meu pai, não sonhe tão alto...
Mas a Galega, atraída por estas palavras, insistiu:
- Deixe-o lá menina, deixe-o sonhar... E diga-me, meu senhor: acha na verdade que se poderia daqui fazer uma grande terra?
O olhar do velho brilhou estranhamente, como se ele fosse profeta:
- Basta querer... Este é um sítio ideal, no caminho grande... Toda a gente passa por aqui...
- Lá isso é verdade, meu senhor... Às vezes até passa gente demais...
- Ora, e cada vez há-de passar mais gente, acredite... O mundo está a desenvolver-se. Ah, se eu pudesse!...
- O senhor... se pudesse... o que fazia? Diga-me...
- Quer saber? Pois oiça... Mandava construir mais casas. Transformava tudo isto numa povoação. Em vez de passar apenas, as pessoas vinham para aqui viver... E a terra havia de aumentar... Os campos seriam cultivados... O rio seria aproveitado... Ah, se eu pudesse! Mas para isso precisava de muito dinheiro... E eu sou um velho, um velho e um doente. Nada valho! Tenho gasto a vida a sonhar...
Calou-se. O seu olhar deslizava pelo espaço em frente, como se já visse erguida a povoação que profetizava. A própria Galega ficou suspensa, a pensar, a sonhar também. E, de súbito, soltando o que lhe ia no íntimo, confessou:
- Dinheiro, dinheiro bastante tenho eu... Se não fosse a proposta de casar com um fidalgo, quem se metia nisso era eu... Seria tão bom ter uma terra, uma grande povoação...
O velho continuou-lhe o pensamento.
- Com muita gente, muitos campos cultivados, muitos jardins...
- Isso mesmo! Isso mesmo!
O peito da Galega arfava de contentamento e emoção.
- Ah, se não fosse o tal fidalgo...
- E sempre vai casar com ele? - perguntou a filha do velho viandante.
A mulher hesitou na resposta:
- Sei lá, minha menina... Ele deve estar de volta, para saber o que resolvi... Vamos a ver se tomo alguma decisão até essa altura. Deus queira que sim!
Conforme se conta na lenda remota, passados dias, tornou o Fidalgo. Era uma tarde de calor. Não havia movimento nos caminhos.
Habituado à casa, o Fidalgo empurrou a porta e entrou molemente. A sala estava deserta. Sentou-se à vontade, sentindo-se já senhor de tudo aquilo. Esperou uns momentos. Como ninguém aparecesse, ele bateu as palmas com força e gritou:
- Então, ninguém atende? Morreu tudo?
Com grande surpresa do Fidalgo, apareceu uma rapariguita.
- Pronto, meu senhor!... Deseja alguma coisa?
O olhar impertinente do viandante examinou-a, de alto a baixo.
- Olá, temos cara nova... Pois claro que desejo... Quero comer e beber!
Ela ia a retirar-se, mas ele reteve-a suavemente por um braço:
- Ouve lá, cara linda: a Galega onde está?
Suavemente também , a rapariga libertou-se. E respondeu:
- Foi tratar de meu pai... Ele está muito doente... está à morte.
- Hum... Pobre pequena... tens o pai a morrer?
- Teve uma recaída senhor... Sofre muito do coração... Cansou-se na viagem até aqui...
Limpou, rapidamente, os olhos ao avental e procurou dar à voz um tom mais seguro:
- Eu vou buscar o que deseja...
Demorou pouco tempo. Absorto nos seus pensamentos, o Fidalgo nem a olhou. Começou a comer e a beber. Principalmente a beber...
E foi bebendo até se fartar. A tarde escurecia e ele voltou a bater as palmas com força e a gritar:
- Onde raio se meteu esta gente?
A rapariguita reapareceu, agora mais chorosa. Assim que a viu, o Fidalgo avançou para ela, já pouco seguro nos gestos e na voz.
- Eh, pequena... Então sempre vais ficar órfã?
- Oh, senhor, cale-se! Cale-se, por amor de Deus!
Ele segurou-a com força.
- Calo-me... mas antes quero dizer-te uma coisa: quando eu casar com a Galega, podes contar comigo...
Indignada, a rapariguita fez um gesto para se libertar, sem o conseguir.
- Pois atreve-se, neste momento?... Largue-me! mete-me nojo! Pobre galega... Ela que tem um coração de oiro...
Estoirou uma gargalhada impudica.
- Isso mesmo, pequena!... Um coração de oiro que pode valer bom oiro para nós dois... se tu quiseres...
Ela deu novo safanão, sem resultado.
- Largue-me, já lhe disse!... Mas descanse... eu vou contar tudo à Galega para ela saber o que o senhor é e o que pretende...
Irritado, o Fidalgo ergueu o braço num gesto de ameaça.
- Ai de ti, se disseres uma palavra!... Olha que sou capaz...
Mas calou-se, de repente, sem saber que fazer. Na penumbra que envolvia a sala, a Galega entrara, sem que dessem por ela. Avançou devagar, libertou a rapariga e olhou o homem bem de frente.
- Não sois capaz de nada, senhor Fidalgo. Eu ouvi tudo. Agora compreendo muita coisa...
Ele ainda tentou uma explicação:
- Eu queria apenas...
Num impulso de cólera, a mulher interrompeu-o e apontou-lhe a porta:
- Cale-se! O senhor não queria nada, o senhor não quer nada... O senhor vai sair imediatamente da minha casa, para nunca mais cá voltar... Ouviu bem? Para nunca mais cá voltar!
E sem uma palavra o Fidalgo saiu, para nunca mais voltar...
Nessa mesma noite, a morte veio buscar o pobre velho sonhador e, junto do corpo ainda quente, a Galega disse, como se fosse uma oração, à pobre rapariguita que chorava convulsivamente:
- O teu pai já não pode construir a linda terra que desejava... Mas vais tu construí-la!... Daqui em diante serás como minha filha!
E assim aconteceu, diz a lenda recontada de gerações em gerações. A povoação alargou-se, cresceu, embelezou-se, tornou-se importante. As duas mulheres, unidas pelo mesmo ideal, conseguiram transformar o sonho em realidade.
Pequena inicialmente, grande depois, a povoação sempre ficou conhecida pelos antigos, como a "Terra da Galega". E só mais tarde se transformou, pela inevitável corrupção popular, na Vila da Golegã, actualmente uma das mais típicas e progressivas de todo o Ribatejo.