24 de outubro de 2008

Lenda da Terra da Galega

Esta imagem pertence à Igreja Matriz da Golegã e foi conseguida por Sérgio Moura e recolhida em Olhares.com
Lendas de Portugal de Gentil Marques.
Ali, no meio da planície ribatejana, apenas a cinco quilómetros do rio Tejo, estende-se a pitoresca e curiosa vila da Golegã, onde se realiza, todos os anos, a famosa feira de S. Martinho.
Pois a Golegã, a da feira de S. Martinho, possui também a sua história lendária. História que vem das próprias raízes da nossa nacionalidade, tal como o povo conta e assegura. História evocada aqui, como que ao sabor do castiço fandango, alma e poesia de todo o Ribatejo.
Nos princípios de Portugal - reza a lenda remota - a Golegã ainda não existia... Por ali, havia unicamente, um terreno pedregoso e aparentemente inútil. Era a Terra do Demo, como então chamavam a todos esses descampado sem vivalma.
Mas um dia aconteceu que certa mulher, oriunda da Galiza e residente em Santarém, se meteu a caminho para tratar da vida. Era longa a jornada. Longa e penosa. Quando chegou ao local ermo onde hoje se estende a Golegã, pensou decerto o mesmo que pensavam quase todos os caminhantes que por ali passavam, ou a caminho de Santarém ou em direcção a Coimbra. Pensou que seria bom existir ali um abrigo, onde se pudesse descansar um pouco e ganhar novas forças para o resto da jornada.
Era mulher animosa, aquela. Desde criança, na sua Galiza distante, habituara-se a trabalhar e a vencer sozinha.
Olhou em redor, enquanto se retemperava, e voltou a pensar na mesma ideia. Eram terras sem dono, essas terras agrestes e abandonadas. E se ela ficasse ali? E se ela construísse ali uma pequena estalagem onde se abrigassem os viajantes?...
Se assim o pensou, melhor o fez, segundo conta a lenda. Tinha braços fortes e alma de antes quebrar que torcer. Em pouco tempo, a sua venda embora modesta, punha uma nota de vida num local outrora deserto...
A partir de então, os viajantes passaram a bendizer a ideia magnífica e tornou-se, por assim dizer, ponto obrigatório de paragem, no caminho, a Venda da Galega - como desde logo ficou designado aquele local.
A mulher multiplicava-se em esforços e em vontade para atender todos da melhor maneira. E alguns tornaram-se mesmo familiares da casa, de tanto que ali passavam e paravam. Entre eles um fidalgo desenvolto e impertinente, que requeria para si o melhor quinhão da comida e da bebida.
- Eh, Galega, chega aqui... Viste o vinho que me deitaste?
Era mais uma das recriminações do "Senhor Fidalgo". Ela suspirou molemente:
- Ah, senhor Fidalgo... vou já arranjar outro melhor... Desculpe, mas o trabalho é tanto, que mal tenho tempo para ver o que sirvo...
Ele inclinou-se um pouco para a frente e falou-lhe em tom de confidência:
- Ora, do que tu precisas Galega, é de um homem que te proteja... que te possa auxiliar em tudo isto!
Foi a vez do rosto dela se abrir numa risada:
- Onde está esse homem Senhor Fidalgo?
Voltou a suspirar e acrescentou em tom de confidência:
- Eu bem o procuro... mas nunca o encontrei até hoje.
Puxou um banco para junto da mesa e sentou-se pesadamente, sentindo que devia desabafar:
- Sabe uma coisa, senhor Fidalgo? Todos os que se oferecem para casar comigo, o que querem é explorar-me, apanhar o meu dinheiro, que eu ganho com tanto trabalho, com tanto sacrifício!
Voltou a erguer-se e rematou, já em voz mais forte:
- Ná! Nessa não caio eu... Antes prefiro viver sozinha que mal acompanhada!
Fez-se um pequeno silêncio. Ela já ia retirar-se, de regresso ao trabalho, mas a voz dele soou, fazendo-a parar:
- Pois tu não percebes o que eu digo, Galega? O que tu precisas não é de qualquer desses valdevinos que enchem a tua venda... É de um homem forte, bom, compreensivo... enfim... de um homem como eu!
Desta vez o silêncio foi mais demorado. A mulher ficou com tremores na voz, quando voltou a falar:
- O quê?... O Fidalgo?... O senhor Fidalgo... quer dizer...
Ele resolveu ser mais explícito.
- Quero dizer que posso ser o homem que tu ainda não encontraste!
Sorriu, superior e bonacheirão, e rematou, depois de beber o resto do vinho:
- Pensa bem, Galega!... Sigo viagem e, no regresso, pararei por aqui, para saber a tua resposta.
Andou uns passos para a porta e, quando se voltou, para se despedir, ela ainda estava no mesmo sítio, olhando em frente, como que aparvalhada.
Ele riu, satisfeito.
- Eh, Galega, não faças essa cara... Tudo é possível na vida!
Saiu batendo com a porta. E a mulher encontrou-se a repetir para si própria, baixinho, como que a medo:
- Tudo é possível na vida!
O tempo foi passando... Agora a Galega tinha um pensamento dominante... "Santo Deus! Eu, com um fidalgo por marido... Essa nunca me tinha passado pela cabeça... Portanto, qualquer dia poderei ser marquesa... ou mesmo rainha". E ria, ria perdidamente, esquecida dos que a olhavam sem perceber...
Mal podia ela adivinhar que o tal senhor Fidalgo há muito tempo já amadurecia o plano que só agora pusera em prática.
No regresso da viagem, sobre o tropel dos cavalos nos caminhos, ele gritava para os companheiros, numa moldura de gargalhadas:
- Vocês vão ver rapazes!... A Galega cai-me no papo e é um ar que lhe dá... E com a maquia que ela já juntou, podemos nós fazer muita coisa... Depressa, rapazes, estou desejoso de chegar.
Entretanto, tal como ele próprio dissera, tudo era possível na vida... E assim algo acontecera que viera modificar um pouco os planos da Galega. Dias antes, tinham chegado à estalagem um velho viandante e sua filha. E o velho, de aspecto respeitável e fala insinuante, ao olhar aquelas terras não escondera a sua surpresa e admiração:
- Que lugar admirável! Que grande povoação se fazia aqui!
- Ora, meu pai, não sonhe tão alto...
Mas a Galega, atraída por estas palavras, insistiu:
- Deixe-o lá menina, deixe-o sonhar... E diga-me, meu senhor: acha na verdade que se poderia daqui fazer uma grande terra?
O olhar do velho brilhou estranhamente, como se ele fosse profeta:
- Basta querer... Este é um sítio ideal, no caminho grande... Toda a gente passa por aqui...
- Lá isso é verdade, meu senhor... Às vezes até passa gente demais...
- Ora, e cada vez há-de passar mais gente, acredite... O mundo está a desenvolver-se. Ah, se eu pudesse!...
- O senhor... se pudesse... o que fazia? Diga-me...
- Quer saber? Pois oiça... Mandava construir mais casas. Transformava tudo isto numa povoação. Em vez de passar apenas, as pessoas vinham para aqui viver... E a terra havia de aumentar... Os campos seriam cultivados... O rio seria aproveitado... Ah, se eu pudesse! Mas para isso precisava de muito dinheiro... E eu sou um velho, um velho e um doente. Nada valho! Tenho gasto a vida a sonhar...
Calou-se. O seu olhar deslizava pelo espaço em frente, como se já visse erguida a povoação que profetizava. A própria Galega ficou suspensa, a pensar, a sonhar também. E, de súbito, soltando o que lhe ia no íntimo, confessou:
- Dinheiro, dinheiro bastante tenho eu... Se não fosse a proposta de casar com um fidalgo, quem se metia nisso era eu... Seria tão bom ter uma terra, uma grande povoação...
O velho continuou-lhe o pensamento.
- Com muita gente, muitos campos cultivados, muitos jardins...
- Isso mesmo! Isso mesmo!
O peito da Galega arfava de contentamento e emoção.
- Ah, se não fosse o tal fidalgo...
- E sempre vai casar com ele? - perguntou a filha do velho viandante.
A mulher hesitou na resposta:
- Sei lá, minha menina... Ele deve estar de volta, para saber o que resolvi... Vamos a ver se tomo alguma decisão até essa altura. Deus queira que sim!
Conforme se conta na lenda remota, passados dias, tornou o Fidalgo. Era uma tarde de calor. Não havia movimento nos caminhos.
Habituado à casa, o Fidalgo empurrou a porta e entrou molemente. A sala estava deserta. Sentou-se à vontade, sentindo-se já senhor de tudo aquilo. Esperou uns momentos. Como ninguém aparecesse, ele bateu as palmas com força e gritou:
- Então, ninguém atende? Morreu tudo?
Com grande surpresa do Fidalgo, apareceu uma rapariguita.
- Pronto, meu senhor!... Deseja alguma coisa?
O olhar impertinente do viandante examinou-a, de alto a baixo.
- Olá, temos cara nova... Pois claro que desejo... Quero comer e beber!
Ela ia a retirar-se, mas ele reteve-a suavemente por um braço:
- Ouve lá, cara linda: a Galega onde está?
Suavemente também , a rapariga libertou-se. E respondeu:
- Foi tratar de meu pai... Ele está muito doente... está à morte.
- Hum... Pobre pequena... tens o pai a morrer?
- Teve uma recaída senhor... Sofre muito do coração... Cansou-se na viagem até aqui...
Limpou, rapidamente, os olhos ao avental e procurou dar à voz um tom mais seguro:
- Eu vou buscar o que deseja...
Demorou pouco tempo. Absorto nos seus pensamentos, o Fidalgo nem a olhou. Começou a comer e a beber. Principalmente a beber...
E foi bebendo até se fartar. A tarde escurecia e ele voltou a bater as palmas com força e a gritar:
- Onde raio se meteu esta gente?
A rapariguita reapareceu, agora mais chorosa. Assim que a viu, o Fidalgo avançou para ela, já pouco seguro nos gestos e na voz.
- Eh, pequena... Então sempre vais ficar órfã?
- Oh, senhor, cale-se! Cale-se, por amor de Deus!
Ele segurou-a com força.
- Calo-me... mas antes quero dizer-te uma coisa: quando eu casar com a Galega, podes contar comigo...
Indignada, a rapariguita fez um gesto para se libertar, sem o conseguir.
- Pois atreve-se, neste momento?... Largue-me! mete-me nojo! Pobre galega... Ela que tem um coração de oiro...
Estoirou uma gargalhada impudica.
- Isso mesmo, pequena!... Um coração de oiro que pode valer bom oiro para nós dois... se tu quiseres...
Ela deu novo safanão, sem resultado.
- Largue-me, já lhe disse!... Mas descanse... eu vou contar tudo à Galega para ela saber o que o senhor é e o que pretende...
Irritado, o Fidalgo ergueu o braço num gesto de ameaça.
- Ai de ti, se disseres uma palavra!... Olha que sou capaz...
Mas calou-se, de repente, sem saber que fazer. Na penumbra que envolvia a sala, a Galega entrara, sem que dessem por ela. Avançou devagar, libertou a rapariga e olhou o homem bem de frente.
- Não sois capaz de nada, senhor Fidalgo. Eu ouvi tudo. Agora compreendo muita coisa...
Ele ainda tentou uma explicação:
- Eu queria apenas...
Num impulso de cólera, a mulher interrompeu-o e apontou-lhe a porta:
- Cale-se! O senhor não queria nada, o senhor não quer nada... O senhor vai sair imediatamente da minha casa, para nunca mais cá voltar... Ouviu bem? Para nunca mais cá voltar!
E sem uma palavra o Fidalgo saiu, para nunca mais voltar...
Nessa mesma noite, a morte veio buscar o pobre velho sonhador e, junto do corpo ainda quente, a Galega disse, como se fosse uma oração, à pobre rapariguita que chorava convulsivamente:
- O teu pai já não pode construir a linda terra que desejava... Mas vais tu construí-la!... Daqui em diante serás como minha filha!
E assim aconteceu, diz a lenda recontada de gerações em gerações. A povoação alargou-se, cresceu, embelezou-se, tornou-se importante. As duas mulheres, unidas pelo mesmo ideal, conseguiram transformar o sonho em realidade.
Pequena inicialmente, grande depois, a povoação sempre ficou conhecida pelos antigos, como a "Terra da Galega". E só mais tarde se transformou, pela inevitável corrupção popular, na Vila da Golegã, actualmente uma das mais típicas e progressivas de todo o Ribatejo.

23 de outubro de 2008

VI - Enamorados

A carta dos enamorados apresentada nesta imagem pertence ao Tarot Tavaglione também conhecido por Stairs of Gold Tarot foi desenhado por Tavaglione e publicado por US Games em 1979.
Em certos Tarots esta carta apresenta três imagens (como é o caso deste): um homem jovem ferido pela seta de Cupido e forçado a escolher entre duas mulheres, outros baralhos apresentam um homem maduro e uma mulher.
Nas primeiras versões de tarot esta carta trazia o nome de "A Escolha" ou "A Decisão" e podia significar uma escolha importante entre dois desejos. No entanto, esta escolha pode ser interpretada de muitas maneiras: uma escolha entre algo agradável mas talvez tedioso e algo muito desejado mas moralmente incorrecto, a escolha entre o conforto do lar paterno e a saída para a formação do seu próprio lar. Se virmos bem, toda a nossa vida é feita de escolhas.
Esta carta pode representar a adolescência, não apenas a sexualidade que emerge nessa época mas também a independência moral e intelectual.
De acordo com os cabalistas e filósofos herméticos, toda a humanidade (e até a divindade) era originalmente, hermafrodita, o macho e a fêmea separaram-se apenas como consequência da Queda. Assim, ao nível externo, cada um de nós é apenas a metade de uma pessoa e através do amor podemos encontrar o sentido da unidade.
Esta mesma ideia já era defendida por Platão com uma diferença bastante interessante pois, dizia ele. que os humanos eram criaturas duplas mas de três espécies: macho-fêmea, macho-macho e fêmea-fêmea. Zeus achava que os humanos tinham demasiado poder e então separou-os com um raio e assim, cada um de nós está procurando a sua metade.
Resumidamente esta carta une dois temas diferentes. Por um lado, mostra uma grande experiência amorosa mas também nos dá a entender que esse passo envolve uma decisão indispensável: a renúncia ao actual modo de vida (a casa paterna, a vida de solteiro, os muitos namoros) e a aceitação clara de um único amor.
Exercício de meditação:- O objectivo desta meditação é não ter medo das escolhas.
Coloque-se numa posição em que se sinta confortável. Comece por fazer várias inspirações e expirações longas e profundas até a sua respiração estar ritmada. Coloque a carta dos Enamorados ou Escolha à sua frente, olhe-a atentamente por uns minutos, deixe vir à sua mente tudo o que a carta representa: escolhas, decisões, perspectivas.
Respire profundamente e visualize-se numa estrada. Comece a caminhar por ela... enquanto caminha, deixe vir à sua mente a situação que, neste momento, lhe pede uma escolha ou decisão.
Inspire e expire mais algumas vezes até se sentir bem relaxado. Na sua caminhada, chega a um ponto em que, à sua frente, se apresentam duas alternativas de estrada. Olhe para cada uma delas; para onde o/a leva a estrada da sua esquerda? E a que está à sua direita? À sua frente aparece agora um ser de imensa luz. É um anjo, não tenha medo, aproxime-se, cumprimente-o e fale-lhe das escolhas ou decisões que tem que tomar. Agora sente-se muito bem, está bastante relaxado/a... o anjo tem na mão uma pequena luz rosa e oferece-a a si, com muito amor. Abra o seu coração para a receber, pois as escolhas mais sábias são as que se fazem com o coração, com amor. Agradeça a ajuda que o anjo lhe trouxe. Agora está preenchido/a com a poderosa energia do amor e da harmonia. Escolha uma estrada e siga por ela. Caminhe confiante na sua escolha. As suas emoções estão agora em perfeita harmonia e tem a certeza do apoio do Universo. Caminha na certeza da escolha feita, sabe que escolheu com amor e sabedoria e na certeza de encontrar no fim desta nova estrada o melhor para si.
Sente-se muito bem e está em paz. Acredite na escolha que fez!
Respire profundamente e guarde dentro de si todas as sensações deste exercício. Abra os olhos e saia progressivamente do relaxamento.
Afirmações (conselhos) para a carta dos Enamorados
- Tomo sempre decisões corajosas e decisivas dentro dos meus valores, atendendo sempre às minhas necessidades emocionais.
- Eu sou a decisão certa.
- Eu sou o caminho.

22 de outubro de 2008

Lenda do galo que cantou a tempo


Lendas de Portugal de Gentil Marques
Em certas regiões do nosso país, existia o costume antigo de preparar um galo especialmente para cantar na chamada Missa da Meia Noite do dia de Natal...
Esse galo, escolhido entre os melhores de cada terra, gozava de grandes regalias, era tratado com requintes de cautela e tinha uma alimentação privilegiada.
Na pequena e pitoresca Vila Nova do Laranjal da freguesia e concelho de Ponte de Sor, havia também tal costume. E dava-se mesmo o galo a guardar ao homem melhor da terra.
Conta a lenda, já gasta pelas repetições da vida, que em certo ano se apresentaram ao Meirinho dois homens fortes e soberbos, disputando entre si o lugar de honra.
O primeiro que falou parecia não admitir dúvidas:
- Provo que sou o melhor! Perguntem nas redondezas... Investiguem a minha vida!
Mas o segundo não se intimidou. E também afirmou com absoluta convicção:
- Perdão, senhor Meirinho... O melhor sou eu. veja as esmolas que tenho espalhado durante o ano... o bem que eu faço aos outros.
Houve uma pausa. Depois, o primeiro dos dois homens voltou a acentuar, um tanto ironicamente:
- Será preferível investigar, senhor Meirinho!
Foi a vez do outro se exaltar. Fitando bem de frente o seu rival, perguntou num ar de desafio:
- Porquê? Alguém se atreve a contestar o que eu digo?
O Meirinho resolveu intervir, para não deixar azedar a questão. E, inclinando-se para ambos, disse na sua voz pausada e sentenciosa:
- Basta, senhores, basta!... Sou eu quem deve resolver o vosso caso... Eu, como meirinho desta terra!
Fazendo uma pausa propositada, a criar expectativa, o Meirinho perguntou depois, em tom arrastado e sem perder os dois homens de vista:
- Podem apresentar alguma testemunha das virtudes que apregoam?
Ambos o olharam e se entreolharam. Sorrindo, com desdém e superioridade, como quem tem a certeza antecipada da vitória.
- A menina do Laranjal!
Parecia de propósito. Tinham ambos dito, simultaneamente as mesmas palavras. Logo se fitaram furiosos. Foi a altura do Meirinho rir:
- Mas... como é isso possível? Então os senhores têm ambos a mesma testemunha? Expliquem-se, por favor!
O primeiro dos homens avançou:
- Senhor Meirinho, quero comunicar-lhe que a menina do Laranjal será em breve minha esposa... Pelo menos, penso declarar-lhe o meu amor...
O outro não se mexeu do lugar, mas retorquiu peremptoriamente:
- Impossível! É comigo que ela vai casar... Já lhe falei nisso e ela aceitou!
O Meirinho voltou a olhar para um e para outro.
- Não compreendo... Não compreendo...
E, de súbito, tomou a resolução mais adequada:
- Bem... Vamos chamar a própria menina do Laranjal!
Diz a lenda que a menina do Laranjal era, de facto, a jovem mais respeitada das cercanias. A mais respeitada e a mais querida.
Pensa-se até que a terra, toda ela, começara apenas pelo Laranjal. E, daí o nome que herdara para o futuro: Vila Nova do Laranjal. Por isso, a jovem simbolizava as tradições da própria terra.
Era órfã e vivia na companhia de uma senhora idosa a quem tratava por tia, mas cuja origem era desconhecida dos habitantes da terra. Misteriosa e estranha, a velha senhora não gozava da mínima simpatia. Todavia, pouco se importava com isso, porque dominava por completo a menina do Laranjal.
Quando a notícia chegou até elas, a jovem não escondeu o seu espanto.
- Mas... se eu nem sequer os conheço... Como poderei eu casar com um deles? E qual devo escolher?...
Aflita, buscou os conselhos da velha senhora:
- Dizei-me, minha tia, por favor... Qual deles hei-de escolher?
A velha senhora fungou uma risada:
- Ora, escolhei o melhor!
- O melhor?... E qual deles é o melhor?
Vagarosamente, a resposta da velha senhora fez-se ouvir.
- O melhor é aquele que for mais rico!
Depois, num ar de sabedoria, acrescentou:
- Compreendeis, não é verdade? Com dinheiro pode comprar-se o Mundo! Acreditai...
A menina do Laranjal, ingénua e simples como era, abanou a cabeça, num ar de tristeza:
- Não, não acredito, senhora minha tia!
E, num suspiro logo completou o seu próprio pensamento:
- Com dinheiro pode comprar-se o Mundo... Mas não se compra a felicidade!
A conversa ficou por aqui e o Meirinho esperava-as...
E os dois homens esperavam-nas, igualmente. Quando a menina do Laranjal e a velha senhora saíram à rua, ambos correram para elas.
O mais impulsivo, foi o que chegou primeiro junto da menina do Laranjal e pediu para lhe falar em particular, ao que ela acedeu sem saber o que fazer.
Mas o outro não se incomodou. Parecia até esperar que isso acontecesse. E enquanto o seu rival se declarava publicamente à menina do Laranjal, ele conversava em surdina com a velha senhora...
Por fim, seguiram todos o caminho do gabinete do Meirinho, que não escondia a sua impaciência por tanto ter de esperar...
Sentaram-se. O Meirinho olhou-os, um por um. Fixou depois o olhar na menina do Laranjal, que estava muito pálida e trémula.
- Dizei-me... Algum destes homens é vosso noivo?
Timidamente, ela respondeu:
- Só um deles me falou de amor...
- Qual?
O olhar da menina do Laranjal, procurou o homem impulsivo com quem falara. E a sua voz mal se ouviu:
- Aquele... além...
- Claro, senhor Meirinho! Até agora... só eu lhe falei de amor... Só eu me declarei apaixonado... Portanto, sou eu o seu noivo!
O outro reagiu com uma risada:
- A menina do Laranjal sabe lá o que é o amor... Ela nada resolve. Quem resolve é a senhora sua tia. E eu... Eu falei com a senhora sua tia e pedi a mão da menina do Laranjal, que me foi concedida. Sou eu, portanto, quem vai casar com ela. Não é verdade, senhor Meirinho?
Nesse ponto enganara-se. O Meirinho, segundo conta a lenda, além de Meirinho era também homem de coração e adorava a verdade.
Assim, ficou silencioso, por momentos, a meditar. E depois sentenciou:
- Tenho muita pena, meu caro senhor, mas a escolha está feita... O homem melhor da terra não pode mentir... E o senhor mentiu-me ao dizer que já falara de amor à menina do Laranjal... Ao passo que o seu rival foi sincero e verdadeiro... É ele, portanto, o melhor. Ele ficará com o galo!
Ergueu-se e fez sinal para que todos se erguessem. Depois, disse ainda num sorriso:
- Sim, ficará com o galo... E casará com a menina do Laranjal, se ela quiser.
E certamente queria, pensou o Meirinho antes de se retirar, porque o olhar que ela trocou com o seu preferido - era um olhar doce e meigo. Um olhar de amor.
O tempo correu sem que nada mais de especial se passasse. O homem escolhido como o melhor, tomara conta do galo e instalara-se já no próprio palacete de sua noiva, pois a esperança de amor estava prestes a concretizar-se em casamento...
A velha senhora que se dizia tia da menina do Laranjal parecia indiferente aos preparativos nupciais. Ausentava-se, às vezes, sem dizer nada. Porém, como era sempre estranha e misteriosa, ninguém lhe fazia perguntas.
Por seu lado, o homem vencido (mas não convencido) garantia aos amigos que não desistis. Havia apenas que aguardar os acontecimentos...
A menina do Laranjal e o seu eleito viviam um para o outro. Mal podiam adivinhar o que ia acontecer...
E aconteceu precisamente em vésperas de Natal!
A notícia caiu como bomba sobre a terra. Desaparecera o galo escolhido e guardado para a Missa da Meia-Noite!
Era o pior que podia acontecer àquela gente. Tocaram os sinos a rebate, o tumulto foi enorme e o Meirinho viu-se obrigado a tomar imediatas providências, mandando prender sem hesitação, o responsável pela existência do galo.
De nada serviam as lágrimas suplicantes da menina do Laranjal. Nem os protestos do melhor homem da terra. Nem as juras de inocência que ambos fizeram.
Perante a ira da multidão, o Meirinho só podia prometer:
- Justiça será feita!
E apontava o presumível culpado, o qual apenas sabia repetir a mesma confissão dorida e frágil:
- Juro que estou inocente!
Mas o meirinho parecia inflexível:
- Só uma coisa te poderá salvar: revela-nos onde está o galo!
Entretanto, no meio da multidão o outro homem esfregava as mãos de contentamento.
- Eu bem dizia... Pois dêem-lhe o castigo que merece!
E, de facto, tudo se começou a preparar para esse castigo, conforma narra a antiga lenda. Nesse tempo, a morte pela forca era a mais afrontosa. E o Meirinho ordenou que preparassem a forca para a própria noite de Natal. O castigo serviria de exemplo para sempre...
O prisioneiro, esperou pela sua última noite - a noite de Natal.
Que podia ele fazer? Já não tinha lágrimas para chorar, já não tinha pensamentos para pensar. Restava-lhe somente a consolação que lhe dava a menina do Laranjal, agora perdida de amor por ele e também por amor dele perdida...
E foi na tarde do derradeiro dia que o homem, já na agonia das suas esperanças, teve uma ideia que nunca o visitara. Se falhasse, nada mais havia a esperar...
Ao contrário do que poderia supor, a menina do Laranjal encontrou-o mais calmo:
- Que se passa contigo?
- Ainda confio...
- Mas já nada é possível... Faltam apenas poucas horas... só um milagre de Deus!
- Eu espero por esse milagre! Hoje é o dia em que nasceu Jesus... não deixará morrer um inocente!
E mostrava tanta confiança na voz e no semblante, que a menina do Laranjal também se sentiu um pouco mais reconfortada.
Chegou a noite. Nunca se vira uma noite de Natal semelhante a essa. A forca erguia-se, sombria e fúnebre, diante da igreja toda iluminada.
E, como era da lei, o Meirinho permitiu que o condenado formulasse o seu último desejo.
Serena, a voz do homem ergueu-se diante da curiosidade dos que o escutavam:
- Peço à menina do Laranjal e à senhora sua tia que subam à torre da igreja. Quero vê-las lá bem no alto... antes de morrer!
Imediatamente, o desejo foi satisfeito. Trémula, nervosa, a menina do Laranjal, sempre acompanhada, embora de má vontade, pela senhora sua tia, subiu lentamente ao ponto mais alto da torre da igrejinha bonita, enquanto cá em baixo se faziam os preparativos para a execução do castigo.
E, de súbito, no meio do silêncio impressionante que se fizera ouviu-se, com verdadeiro espanto, o galo cantar. Uma. Duas vezes. Três vezes.. E o homem que estava prestes a morrer na forca gritou emocionado:
- O galo vê-as! O galo vê-as!
Foi um assombro. Muitos correram para o local donde viera esse canto inesperado. E, daí a pouco voltavam triunfantes, trazendo o galo que estivera escondido no quintal do outro pretendente.
O homem que se salvara da forca contou então, a ideia que tivera. Lembrara-se que sempre o galo cantava quando via a menina do Laranjal e a senhora sua tia. E pensou fazer a experiência derradeira. Se o galo estivesse na vila e visse a menina do laranjal e a senhora sua tia no alto da torre havia certamente de cantar. E cantara, de facto!
Acrescenta a lenda velhinha que ninguém mais soube do outro homem nem da velha senhora que se dizia tia da menina do Laranjal. Desapareceram por completo, nessa mesma noite...
Em breve o Homem Bom, como agora lhe chamavam, e a menina do Laranjal casaram.
para eles fora o Menino Jesus que fizera o milagre... E o grito do homem "O galo vê-as! O galo vê-as!" ficou perdurando na tradição, de tal modo que o nome da terra deixou de ser Vila Nova do Laranjal para passar a sr, como hoje ainda é, GALVEIAS - a bonita e pitoresca vila do concelho de Ponte de Sor.
E diz-se, igualmente, que vem desse tempo e desta história a tão pitoresca expressão popular "cantaste a tempo", inspirada precisamente pelo galo que, na verdade, cantara a tempo.

20 de outubro de 2008

Lenda dos Estremoços

Lendas de Portugal de Gentil Marques
O sol, um sol quente, abrasador, caía implacável sobre o carro onde viajavam um homem, uma mulher e uma criança. Este grupo vinha de longe, dos contrafortes da serra. Ódios políticos tinham atirado esta família para a estrada sem fim. O calor apertava. A sede torturava-os. O pó punha-lhes a boca gretada e a língua áspera. Precisavam descansar, fugir ao sol desta planície imensa que ficava para além do rio Tejo.
De súbito apareceu uma sombra larga, acolhedora, como um oásis no deserto. O homem refreou o andamento dos cavalos que puxavam a carruagem. Gritou contente para a mulher:
- Olha que árvore! Que bela! Que majestosa!
A mulher concordou:
- É das mais belas que tenho visto!
Curiosa, a pequenita filha do casal perguntou logo:
- Mãezinha, como se chama esta árvore?
Foi o pai quem respondeu:
- Creio que é um tremoceiro!. Não tem, aparentemente, grande importância... Mas a verdade é que oferece uma sombra bem acolhedora!
A criança olhou os pais. E arriscou:
- E se ficássemos aqui? Já estou tão cansada... e com tanto calor...
O homem sorriu:
- Tens razão minha filha! Vamos ficar por aqui... Pelo menos estaremos à nossa vontade, livres de inimigos e de más vizinhanças... Vamos! É necessário levantarmos a nossa tenda de campanha, antes que anoiteça.
A pequenita pulou imediatamente para o solo. Na sua imaginação aquela sombra era o Paraíso...
- Eu também quero ajudar! Vai ser tão bom... Não teremos que voltar a andar de carro por estes caminhos com tanto sol e tanta poeira!...
O homem desceu também, acariciou a cabeça da filha e olhou em redor. Lentamente. Atentamente.
- Isto é grande! Mas não vejo ninguém... Tanto melhor!
E, na manhã seguinte, quando o Sol veio dar os bons dias ao tremoceiro, encontrou erguida uma barraca de campanha, como que a proclamar a independência dos foragidos naquela terra de liberdade...
Porém, uma visita inesperada surgiu também, aos primeiros clarões do Sol. Era um velho forte e autoritário, arrimado a um grosso bordão. Havia cólera na sua voz ao interpelar os recém-chegados:
- Com que direito entrastes nos meus domínios?
O outro homem sentiu-se ofendido com aquele tom e indagou com altivez:
- E quem sois vós para me fazerdes semelhante pergunta?
O velho bateu com o bordão na terra:
- Sou o dono de tudo isto... de todo o plaino... Do tremoceiro, que plantei por minhas mãos... das árvores que há em redor...
- E nós somos viandantes... ou para melhor dizer: perseguidos injustamente por delitos que não cometemos...
O velho resmungou, num ar de suspeita:
- Talvez assassinos... ou ladrões...
Desta vez, com grande espanto do próprio velho, foi a criança que o interrompeu, numa vozita indignada:
- Senhor! Estais a insultar meus pais e eu não poderei admitir-vos...
O senhor daquela terra sorriu irónico, mas a sua voz perdeu o tom colérico:
- O quê? A formiga já tem catarro? Era o que faltava... uma fedelha a atravessar-se no meu caminho!
O viandante curvou-se:
- É uma criança que fala pela voz da verdade! Não tendes o direito de nos insultar!
Então, a cólera voltou a apossar-se do velho. A sua expressão tornou-se dura:
- Fora daqui! Ouvis bem? Fora daqui! Não vos quero ver mais nos meus domínios!... Saíreis a bem... ou à força!
Altivo, o homem que viera de longe retorquiu:
- Pois já que nos ameaçais... dir-vos-ei que só à força sairemos... se tiverdes poder para isso!
O grosso bordão do velho bateu com mais vigor ainda na terra.
- Já que assim o quereis... assim o tereis! Os meus homens não tardarão a expulsar-vos!
E, ditas estas palavras, ele voltou costas, meteu-se na velha carroça que o esperava - e abalou...
Mas, pouco tempo depois, voltou com muitos homens armados. A família que viera de longe e acampara ali para encontrar paz e descanso recolheu apressadamente à sua carruagem. A vida estava em perigo e era necessário, mais uma vez, defendê-la.
Com voz cansada e triste, a pobre mãe murmurou numa queixa:
- Meu Deus! Porque somos tão perseguidos? Não fizemos mal algum e todos nos odeiam! Porquê, meu Deus?... Porquê?
Mas já o marido lhe recomendava enérgico:
- Defende tu aí essa entrada... Eu ficarei aqui a aguentá-los! Não se dirá que um fidalgo como eu se rendeu pela força...
Um grito abafado veio cortar-lhe o pensamento. Ele olhou a mulher que mostrava uma expressão apavorada.
- A nossa filha?... A nossa filha onde está, que não a vejo?
Ele inquietou-se:
- Mas... vi-a há pouco, junto de ti!
- Sim... enquanto estávamos descansando... Mas agora... Agora não sei dela!...
O homem rangeu os dentes:
- Ah, miseráveis! Se derramaram uma gota de sangue que seja da minha filha, hão-de pagar-mo bem caro!
Entretanto, indiferente ao perigo, a criança tinha atravessado por entre os homens armados e avançara, devagar, como um pequeno gato, ao encontro do velho chefe. Quando este a viu perguntou, espantado:
- Tu? Aqui? Como ousaste?
A pequenina sorriu com candura:
- Com a ajuda de Deus, meu senhor... Preciso falar-vos!
- Falar comigo?
Havia desconfiança na voz do velho.
- Ah! Não será uma armadilha?
A rapariguinha abriu os olhos num espanto. Num espanto e num sorriso.
- Armadilha? Oh... Não! Não poderia fazer-vos mal... Sou tão pequena ainda...
O velho pareceu cair em si. Franziu as espessas sobrancelhas esbranquiçadas e a sua voz soou melhor aos ouvidos da menina:
- Perdoa-me! Tens razão! Portei-me agora com insensatez. Diz lá o que pretendes...
Ela mostrou-se alegre.
- Sabei, senhor... que estive a pensar numa coisa!...
- Tu... a pensar? E que foi?
- Ora... Pensei que em volta de uma árvore tão bonita como aquele tremoceiro podia construir-se uma povoação também bonita e grande... capaz de causar inveja às outras povoações...
Foi a vez do velho sorrir à criança.
- Não é mal pensado! Mas como havemos de a construir?
- Com boa amizade e paz.
O velho repetiu as mesmas palavras. Pensativo. Como num eco do seu próprio pensamento.
Então a pequenita prosseguiu com entusiasmo, vendo que a luta se mantinha suspensa, esperando ordem de ataque.
- Sabei que meu pai é um grande construtor. A minha mãe ajuda-o em tudo... Se o senhor quisesse... eles poderiam construir aqui uma cidade, dirigindo e aproveitando o trabalho dos seus homens..O velho olhava-a espantado. Meneava a cabeça como que duvidando do que ouvia.
- Ora esta! Uma catraia como tu... com uma ideia tão grande! Donde te veio semelhante pensamento?
Ela sorriu, ingénua.
- Foi Deus Nosso Senhor quem mo deu!
Houve um momento de silêncio, em que o olhar do velho ficou a perder-se no vasto horizonte. depois, tomado de súbita energia, gritou para os seus homens:
- basta! Pensei melhor e não atacaremos... Podem retirar-se. daqui em diante todos seremos bons amigos e companheiros!
E nesse mesmo dia, com grande júbilo do casal foragido - que voltara a ter junto de si a filhinha adorada mas ignorava ainda tudo quanto se havia passado - o velho chefe procurou o marido e a mulher. Porém, desta vez chegou sorrindo:
- Venho em missão de paz e amizade!
A mulher respondeu-lhe, já com voz serena:
- Sede bem-vindo, senhor!
Afável, também, o homem que viera de longe quis demonstrar o seu desejo de confraternização.
- Tomai um pouco de sombra do tremoceiro!
O velho acrescentou intencionalmente:
- Do "nosso" tremoceiro - quereis dizer!
- Como?
- De hoje em diante, o tremoceiro pertencerá a todos nós... Sei que sois um grande construtor e vós, senhora, extraordinária ajudante...
o homem interrompeu-o perplexo:
- O quê?... Decerto estais enganado, senhor! Fui, sou e serei unicamente um fidalgo... E esta é a minha esposa, à face de Deus e dos homens!
- Mas... a vossa filha disse-me...
Houve um leve sorriso nas expressões do casal.
- Compreendo agora, senhor! A nossa filha tem uma imaginação prodigiosa e vós... acreditastes...
O velho olhou a criança. Ela encolheu-se um pouco entre envergonhada e receosa...
- Uma fedelha destas a enganar um velho como eu! Mal posso acreditar...
Mas a sua voz tinha um tom bonacheirão. Cheirava a simpatia. E a pequena ladina pareceu ficar logo mais à vontade. Segurou carinhosamente nas mãos do velho e falou devagar, espiando as reacções dele:
- Oh, meu Senhor... eu não vos enganei... Reparai no que vos disse: Com o auxílio de todos poderemos construir uma grande povoação à volta do tremoceiro... Pois não é verdade?
O velho voltou a sorrir.
- Tens razão... O que é preciso é haver boa amizade e paz! 
E sublinhou, puxando-a para si com ternura:
- Hoje mesmo começaremos a construir a nossa terra!
Dentro em breve, o sonho da rapariguita começou a transformar-se em realidade. Com a ajuda de todos, trabalhando esforçadamente de sol a sol, a povoação ia criando as suas primeiras casas e a sua primeira rua.
Agora sim, graças à esperteza e à iniciativa da filhinha, o casal foragido sentiu que conquistara, de novo, a felicidade.
E a estimular ainda mais os infatigáveis obreiros da nova povoação o velho chefe voltou alvoroçado duma das suas viagens habituais.
- Escutai, amigos! Escutai! Boa nova para todos nós! El-rei D. Afonso III acedeu a dar foral à nossa terra!
Foi uma alegria. Houve abraços e beijos. Vivas e palmas. Dançou-se e cantou-se, como se todos fossem irmãos
Depois, o velho chefe reuniu-os de novo e falou solenemente:
- Temos de dar um nome à nossa terra... Um nome bonito, sonante, que fique para a posteridade... Qual deve ser esse nome?
As opiniões começaram logo a dividir-se. cada um dava a sua ideia. E a ideia de cada um era sempre melhor do que as ideias dos outros... Depressa se estabeleceu a barafunda, até que o velho chefe, com a sua autoridade incontestada, resolveu intervir:
- Calai-vos! Assim nada conseguiremos. A mim parece-me que só há aqui uma pessoa capaz de nos indicar um nome bonito... Sabeis a quem me refiro, com certeza. A ela devemos a ideia feliz da fundação da nossa terra. Pois que nos dê também um nome para ela.
Todos se voltaram para a rapariguita. De acordo. Esperando. Um pouco intimidade por tão grave responsabilidade, mas sempre sorrindo, como fazia nas ocasiões de perigo, a menina avançou por entre os homens e as mulheres que a olhavam ansiosamente e falou. Falou sem tremer a voz. falou como se estivesse a repetir uma lição já decorada:
- Bem... Se desejam que seja eu a dar o nome à nossa terra... parece-me que o melhor é por-lhe um nome que lembre aquela árvore a que devemos tão boa sombra... Foi a única que sempre aqui nos acompanhou, tal como o Sol e como a Lua... Eu acho portanto que a nossa terra se deve chamar Estremoços! 
Houve um momento de pasmo. E de silêncio. A rapariguita falara tão bem, tão bem que estavam todos maravilhados.
E foi afinal o velho chefe quem tomou a palavra em nome de todos:
- Muito bem!... A garota falou como uma pequena sábia... Na verdade, devemos dar à terra o nome do fruto abençoado que tanto nos ajudou. Os estremoços foram o pão nosso de cada dia... Pois também nós seremos sempre leais aos bons estremoços!
 E a terra ficou a chamar-se Estremoços - ou, melhor ainda, a Terra dos Estremoçoa, como então se designava em linguagem popular os tremoços de hoje... E o seu brasão inicial compôs-se precisamente de um tremoceiro, tendo por cima o escudo das quinas e em redor o Sol e a Lua... a perpetuar assim pelos séculos fora as palavras daquela garota de imaginação prodigiosa que falara, de facto, como uma menina sábia...
Depois, com o decorrer dos tempos, tudo se foi alterando... o nome dos estremoços passou a ser apenas tremoços... E a Terra dos Estremoços acabou por se transformar na cidade de ESTREMOZ que se ergue hoje, altaneira, em pleno distrito de Évora, como uma sentinela do Alentejo.

NOTA:- Embora eu saiba que o tremoceiro seja um arbusto de pequeno porte e, durante toda a história não se diga a idade da menina, acho que ela era um bocado desembaraçada para meu gosto no entanto, lenda é lenda e nas lendas tudo é possível.
E agora, como diria a minha neta:
Vitória! Vitória! Acabou-se a história...

12 de outubro de 2008

V- O Papa

Esta carta representa o Papa, também chamado Sumo Sacerdote ou Hierofante e pertence ao baralho de tarot Original Rider Waite feito por A.E. Waite e Pamela Colman-Smith e editado pela US Games em 1999.
Este trunfo indica, principalmente, uma educação e uma tradição onde existe um conjunto de crenças que têm que ser aprendidas e aceites pelos acólitos antes de poderem atravessar a entrada.
Esta carta muitas vezes também designada por Hierofante pode chamar a atenção para o fenómeno moderno de uma espécie de misticismo que vai buscar inspiração em todas as religiões, assim vai-se encarando a religião como uma experiência e não como uma explicação do Universo.
Numa leitura, esta carta poderá significar igrejas, doutrinas e educação em geral. Psicologicamente ela pode indicar ortodoxia, conformidade com as ideias da sociedade e códigos de comportamento, como também mais subtilmente, uma desistência da responsabilidade. O Imperador significa as próprias regras e seus executores oficiais, o Hierofante indica o nosso sentido íntimo de obediência.
Também com o Hierofante devemos falar no mundo da fé e da profunda confiança resultante da certeza da fé. Devemos falar ainda do caminho da ética e da virtude e dos propósitos pessoais que nascem dos nossos valores morais.
Exercício de meditação :- Pode usar este exercício para favorecer o seu relacionamento.
Comece por se sentar numa posição confortável, coloque a carta O Papa à sua frente e tente visualizá-la bem. Saiba que os conceitos gerais da carta são: continuidade, sinceridade, fidelidade, tranquilidade... Feche os olhos, coloque as mãos voltadas para cima descontraidamente sobre o colo ou joelhos, respire e expire profundamente. Medite sobre o seu relacionamento pessoal ou profissional que requeira a sua atenção e no qual gostaria de fazer mudanças ou simplesmente melhorar. Pense em todos os pontos: se está à procura de um relacionamento, pense como gostaria que fosse essa pessoa e peça a Deus, numa oração interior que a coloque no seu caminho.
Respire fundo e sinta todo o seu corpo a relaxar. Está num jardim muito bonito e à sua frente está uma igreja. Caminhe para lá, abra a cortina que o/a separa da entrada da igreja. veja, ao fundo está o Papa sentado no seu trono. Vá ao encontro dele.
Imagine o papa diante de si, veja-o com todos os pormenores: as vestes papais, a tiara, o ceptro de três cruzes. Aproxime-se e ajoelhe-se aos seus pés. Sinta a bondade, a doçura e a harmonia que vêm deste homem. Deixe-se envolver por estes bons sentimentos, fale-lhe sobre o que o/a incomoda neste momento ou simplesmente o que deseja que aconteça na sua vida. Ouça as palavras que ele tem reservadas para si com atenção. O Papa é o detentor da sabedoria divina, pois é o representante de Deus e Deus deseja que seja muito, muito feliz.
O Papa coloca agora a sua mão direita sobre o seu coração e dele sai uma luz rosa. É a luz do amor, da compaixão e da harmonia, deixe-a entrar no seu coração, receba-a como uma oferta de amor divino. Esta luz no seu coração vai ajudá-lo/a nos seus relacionamentos diários, estará mais confiante, falará com mais amor, estará mais receptiva a receber todo o amor, amizade e respeito que merece. Pode levantar-se. Agradeça ao papa por o/a receber e abençoar. Volte, passe pela igreja, feche a cortina e saia de novo para o jardim. Respire profundamente e aos poucos vá desfazendo esta imagem mental, saia do relaxamento.
Afirmações (conselhos) para o Papa:
- Deixo que a minha luz interior se manifeste e me guie com sabedoria e compaixão.
- Eu sou a inteligência.
- Eu sou a prudência.
- Eu sou o equilíbrio.
- Eu sou o poder da comunicação.

7 de outubro de 2008

IV - Imperador

A imagem do Imperador que aqui vos apresento pertence ao baralho de Tarot de Morgan Greer feito por Bill Greer e Lloyd Morgan publicado por US Games em 1979.
Os trunfos III e IV do Tarot representam os pais nos seus papéis arquetípicos. Mas, do mesmo modo que a Imperatriz significa o mundo natural, o Imperador tem mais ampla conotação com o mundo social "casado" com a natureza. Ele simboliza as leis da sociedade, tanto as boas como as más, e o poder que as aplica.
No seu melhor aspecto o Imperador indica a estabilidade de uma sociedade justa que permite que seus membros procurem satisfazer suas necessidades pessoais e atinjam o desenvolvimento.
Na maioria dos baralhos, o Imperador é desenhado como velho e duro, vestido com uma armadura metálica representando a esterilidade de uma vida rigidamente governada por regras. O seu ceptro indica que ele detém o poder de vida ou morte.
Temos representados nesta carta o poder da sociedade, suas leis e principalmente a autoridade para aplicar as leis. O Imperador é o anseio pela estabilidade, certeza e continuidade. Corresponde ao anseio pela civilização com a qual construímos casas, sistemas de aquecimento e de refrigeração para nos proteger do calor, do frio, da humidade; automóveis, aviões para se fazerem maiores distâncias com rapidez e conforto; escolas para assegurar o nível da educação.
Também nos pode apresentar um modo de agir tão pragmático que pode levar a exageros em forma de rigidez, falta de vivacidade e abuso de autoridade.
Exercício de Meditação - Sente-se confortavelmente, de preferência virado/a para sul. À sua frente coloque a carta do Imperador, sinta que está à frente do arquétipo do poder.
Faça várias respirações até se sentir completamente relaxado/a. Visualize diante de si o Imperador, forte, poderoso, um guerreiro, um conquistador absoluto, seguro de si próprio e das suas capacidades e conquistas.
Dirija-se até ao Imperador, peça-lhe licença para se aproximar do seu trono. Fale-lhe de tudo o que já conquistou até aqui e de tudo o que ainda deseja conquistar na sua vida profissional, material e sentimental. Dirija-se agora ao Imperador com as seguintes palavras: "Ó grande chefe, tu que detens o poder sobre todas as coisas, transmite-me um pouco do teu poder, a fim de que eu me sinta forte e seguro/a em todas as minhas acções e decisões. Que a tua energia flua através de mim para eu realizar todos os meus propósitos".
Visualize o Imperador a colocar-lhe o seu colar de ouro ao pescoço. Este colar representa a união e a força num só. Ele também lhe dá o seu ceptro de poder e o coloca na sua mão direita. Desfrute deste momento e sinta-se capaz, como o Imperador. Tem agora em si o poder de realização, de estabilidade e de domínio sobre a sua vida e tudo à sua volta.
Agradeça e devolva ao Imperador o colar e o ceptro. Guarde em si o poder transmitido pelo Imperador. Despeça-se e saia da sua presença. Aos poucos saia da meditação.
Afirmações (conselhos) para O Imperador
- Tenho total poder interior e equilíbrio sobre as minhas emoções. Ultrapasso todos os obstáculos e limitações da vida, com firmeza.
- Eu sou a força de vontade.
- Eu sou a perseverança.
Eu sou a estabilidade.

3 de outubro de 2008

III - Imperatriz

Hoje vamos falar da carta da Imperatriz. A que aqui está representada pertence ao baralho de Tarot Golden Dawn de Giacinto de Gaudenzi e foi publicado por Lo Scarabeo em 2003.
A Imperatriz é o aspecto mais acessível do arquétipo feminino pois pensando nela pensamos em maternidade, amor, delicadeza mas, ao mesmo tempo em sexualidade, emoção e a mulher como amante.
A Imperatriz é emoção pura, assim como as suas sósias mitológicas Afrodite ou Ishtar, elas representam o enfoque apaixonado da vida.
Este Arcano tanto significa a criança simples, sem controlos nem rótulos mas também significa a mãe. A maternidade é o meio básico para que a vida continue.
Nas cartas de Tarot, quando surge a Imperatriz ficamos alertados para um tempo de paixão, um período em que nos aproximamos da vida através de sentimentos e prazeres e não através do pensamento.
Temos aqui vitalidade, fertilidade, crescimento, nascimento do novo.
Exercícios de Meditação - Sente-se confortavelmente. Comece por fazer várias inspirações e expirações longas e profundas. Coloque a carta A Imperatriz à sua frente, olhe-a atentamente durante uns minutos e deixe vir à sua mente tudo o que a Imperatriz representa: comunicação, razão, confiança, realização, fertilidade. Deixe fluir as ideias, gaste o tempo que julgar necessário.
Visualize agora, diante de si, a Imperatriz. Ela está sentada no seu trono. É uma mulher bonita, vaidosa, cheia de jóias que a embelezam ainda mais, cheia de vida e sedutora, detém um grande poder guardado no ceptro que tem na mão.
Ela levanta-se do seu trono, sorri para si e caminha na sua direcção. Retribua-lhe o sorriso. A Imperatriz estende-lhe a mão, vá com ela e exponha-lhe todos os seus receios, medos e dúvidas, diga-lhe em que ela o/a pode ajudar. Com a razão e o seu poder de comunicação a Imperatriz começa a falar ao mais íntimo do seu ser, do seu coração, ouça as suas palavras com atenção.
Ela coloca-lhe agora na sua mão o ceptro do poder e o seu escudo de protecção por uns minutos.
Tem à sua disposição os poderes criativos e materializadores da Imperatriz. Imagine que tudo aquilo que deseja se torna realidade. desfrute esse momento, abra o seu coração e todos os seus sentidos para receber este poder.
Devolva o ceptro e o escudo, agradeça à Imperatriz e retire-se do seu palácio. Aos poucos vá saindo do relaxamento e finalize esta visualização.
Afirmações (conselhos) para a Imperatriz:
- Consigo ver tudo com alegria e beleza. A plenitude faz parte da minha vida
- Eu sou a acção positiva.
- Eu sou a realização
- Eu confio em mim

22 de setembro de 2008

Lenda da galanteria de D. Rodrigo

Lendas de Portugal, segundo Gentil Marques
Esta lenda é de origem algarvia. Nasceu nos arredores de Loulé, quase junto à vila, num terreno outrora despovoado que hoje se chama "Cabeço do Mestre.
Nesse tempo, reinava em Portugal D. Afonso III e a conquista do Algarve era o sonho máximo. D. Paio Peres Correia, mestre de Sant'Tiago, reunindo a fina flor dos cavaleiros lusos, levava por diante o sonho do seu rei. E entre os cavaleiros às suas ordens - diz a lenda - encontrava-se um tal D. Rodrigo de Mascarenhas, conhecido pela sua galanteria para com as damas e especial benevolência para com os enamorados.
Castelo após castelo iam caindo, numa entrega total. O exército português tinha chegado às portas de Loulé. Tomara posições num cabeço fronteiro. O combate travara-se logo no primeiro dia, num local próximo do castelo.
Dois dias durou o combate. Dois dias apenas. Os mouros capitularam e os cavaleiros cristãos entraram na fortaleza, fazendo prisioneiros. Como não convinha que os prisioneiros ali ficassem, D. Paio ordenou a D. Rodrigo que conduzisse os cativos a um lugar mais seguro.
Escoltados por uma pequena hoste, foram os prisioneiros levados de Loulé, através de terrenos já conquistados. Pelo caminho, D. Rodrigo notou entre os cativos um jovem de semblante simpático, mas terrivelmente triste. Vinha ricamente vestido. D. Rodrigo esperou o momento de fazer alto e, acercando-se dele, perguntou-lhe:
- Porque estás tão triste? Na vida guerreira ou se vence ou se é vencido. Quanto à tua honra, fica descansado, porque está salva. Vencemos mas foi necessário quebrar uma resistência valorosa.
O jovem mouro suspirou fundo, mas não respondeu, D. Rodrigo tornou:
- Não julgues que só conto vitórias na minha carreira! És novo e talvez a vida venha ainda a sorrir-te.
O mouro abanou a cabeça e a sua voz soou dolente:
- Senhor, não lamento o meu cativeiro, mas sim a morte das minhas ilusões. O meu nome é Abindarráez e sou da raça dos Abencerragens. Durante a minha infância fui criado em Cártama, vivendo em casa do alcaide da cidade. Esse alcaide tem uma filha Jarifa, com quem brinquei em pequeno. Os anos passaram e Jarifa tornou-se uma doce e formosíssima donzela. O nosso carinho de meninos transformou-se numa forte paixão. E quando supúnhamos chegada a hora da nossa união poder realizar-se, fui mandado para aqui por ordem do meu rei e a pedido do pai de Jarifa que não deseja ver-me casado com a filha. Ora, precisamente há dois dias, chegou aqui um mensageiro de Jarifa, dizendo-me da sua parte que ela me esperava em Silves, para nos casarmos em segredo. Deves calcular como rejubilei. Era, finalmente, a realização do meu grande sonho. A nossa separação ia terminar. Vesti o meu traje mais rico, escolhi o meu melhor cavalo e dispunha-me a sair para Silves quando chegou a notícia que as vossas tropas estavam às portas de Loulé. Seguiu-se a luta e a nossa derrota. E agora aqui vou, sabe Alá para onde, enquanto Jarifa se encontra em perigo em Silves e sem poder voltar para casa do pai! Bem vês, senhor, como me sinto morrer! Se ao menos a pudesse salvar!
Emocionado, D. Rodrigo guardou silêncio após a narração do jovem mouro. Por fim, disse-lhe:
- Abindarráez, tudo na vida pode ser reparado, quando Deus quer! Para quê, pois, esse desespero?
O mouro olhou intrigado o cavaleiro português. Mediu-lhe a expressão benevolente. Reparou melhor no seu porte altivo mas acolhedor. Murmurou:
- Como queres que eu espere algo de bom, se a minha situação é, na verdade, desesperada?
O cavaleiro sorriu:
- Assim pensas?... Eu não!- Não? E porquê, podes dizer-me?
- Sim, vou dizer-to. És de sangue nobre e, apesar das nossas divergências de religião, sei o que um homem nobre deve à sua honra. Pois bem: vou dar-te liberdade para que vás a Silves ao encontro da tua noiva, enquanto é tempo. Depois, regressareis ambos ao nosso acampamento, a entregar-vos como cativos. Queres?
Os olhos do jovem mouro brilharam de alegria:
- Pois... és capaz de acreditar em mim?
- Inteiramente.
- Por Alá te juro que voltaremos, a menos que encontra a morte pelo caminho.
D. Rodrigo, como resposta, deu ordem de continuarem a marcha e de entregarem ao jovem mouro o seu cavalo.
Abindarráez montou no cavalo, que relinchou de alegria ao reconhecer o dono. E, com uma saudação reconhecida a D. Rodrigo, galopou a caminho de Silves.

No pátio privativo de Aben-Afan, no castelo de Silves. Jarifa esperava, com ansiedade, o seu bem amado. Já haviam chegado ali os rumores da batalha perdida e do perigo eminente em que estava toda a moirama de Al-Garb.
Abindarráez e Jarifa caíram nos braços um do outro. Ela murmurou:
- Começava a desesperar!
Ele beijou-lhe os cabelos.
- Querida, se soubesses quanto sofri! Mas agora estamos juntos e vamos casar, mas não será aqui.
- Onde, então?
- Fiquei prisioneiro. Não penses que fugi à luta, pois jamais o faria. Porém, encontrei como chefe dos que nos levam, nem sei para onde, um homem extraordinário que se compadeceu de mim e de ti, ao ponto de me deixar vir buscar-te! Silves em breve será o lugar mais aceso desta guerra e eu temia pela tua sorte!
Jarifa ficou pensativa. Abindarráez voltou a acariciá-la. E perguntou, levantando-lhe o queixo para lhe ver bem os olhos.:
- Querida! Não queres ser a esposa de um cativo? Pois liberto-te da nossa jura!
Ela escondeu o rosto no peito do bem amado, censurando-o:
- Como pudeste supor semelhante coisa! Estava apenas a pensar se seria possível voltares pra Cártama.
Ele apressou-se a informá-la:
- Jamais cometeria essa vileza! O homem que permitiu que viesse buscar-te é responsável por mim. pagaria com a vida a sua cortesia. Nunca lhe corresponderia de tal modo!
Jarifa acariciou-lhe uma das mãos.
- Tens razão, perdoa-me! Partiremos já, antes que Aben-Afan te queira ver.
E montando o mesmo cavalo, Jarifa e o noivo voltaram para o local previamente combinado entre Abindarráez e D. Rodrigo.

Chegados ao acampamento cristão, os jovens mouros foram recebidos por D. Rodrigo. Houve um momento de admiração entre os cavaleiros portugueses. A beleza extraordinária de Jarifa, o encanto dos seus gestos e da sua voz deixavam todos boquiabertos. O porte do jovem tornava-o simpático aos seus carcereiros. Servindo-se da influência dos alcaides depostos, D. Rodrigo pediu a estes a clemência para o pai de Jarifa e o seu consentimento no enlace dos dois enamorados. E o perdão foi concedido aos prisioneiros.
Passeavam eles juntos, quando D. Rodrigo veio anunciar a boa nova-
- Chegaram cartas do meu rei e do vosso. O meu, concede-vos o perdão. O vosso, falou com o pai de Jarifa, que perdoa também a sua fuga e espera-vos para celebrar uma boda digna de vós!
Jarifa tomou a mão de D. Rodrigo num arrebatamento.
- Senhor, senhor, como poderei agradecer-te?
Galantemente, D. Rodrigo retorquiu:
- Sorrindo, senhora! Tendes o mais belo sorriso do mundo!
Abindarráez, com os olhos brilhantes de lágrimas que não queria deixar correr, colocou a sua mão sobre a de D. Rodrigo, dizendo:
- Se precisares da minha vida, podes contar com ela!
Emocionado também, D. Rodrigo disfarçou essa emoção, respondendo com voz segura:
- Ide buscar o que vos pertence enquanto alguns dos meus homens preparam cavalos e escolta. Não desejo que vos aconteça nenhum mal. Adeus, sede felizes ... e, até um dia!
E, sem dar tempo a mais agradecimentos, D. Rodrigo retirou-se do pátio.
Semanas depois do jovem par ter partido, chegaram uns emissários de Abindarráez com grande quantia em dinheiro e dois formosos cavalos brancos.
Rodrigo olhou os emissários, sorrindo. Depois, falou-lhes assim:
- Levai essas prendas e dizei a Abindarráez que não se amofine por eu não poder aceitá-las. Acrescentai que nada me devem, pois não estou habituado a roubar damas, senão a servi-las e honrá-las!
- Recusais então o resgate?
- Não há resgate. Nunca o pedi. Levai antes as minhas homenagens à mulher mais bela que até hoje vi, e ao jovem de porte altivo e sangue nobre, que entraram fundo no meu coração.
E os emissários partiram perplexos.