23 de abril de 2009

Aparências

Esta imagem que aqui vos apresento é a carta da justiça do Tarot Manara e, para mim, representa de um modo muito claro a ideia que eu vou tentar transmitir.
Como as pessoas têm tendência a fazer as suas interpretações só por aquilo que vêem...
Esta situação foi apresentada durante uma aula de Psicologia, há uns largos anos atrás:
"Miguel é um artista, de boa aparência, 33 anos de idade."
Eis a seguir, como foi percebido um episódio da vida de Miguel, por diferentes pessoas:

- RELATO DA MÃE:
"Miguel levantou-se correndo, não quis tomar o pequeno almoço, nem ligou para o bolo que eu havia feito especialmente para ele. Só apanhou cigarros e fósforos. Não quis pôr o cachecol que eu lhe dei. Disse que estava com pressa e reagiu com impaciência aos meus pedidos para se alimentar e se abrigar. Ele continua sendo uma criança que precisa de atendimento, pois não reconhece o que é bom para si próprio".
- RELATO DO MOTORISTA DO TÁXI
"Hoje, de manhã, transportei um sujeito e não fui muito com a cara dele. Estava de cara amarrada, seco, não queria saber de conversa. Tentei falar sobre futebol, sobre política, sobre o trânsito e sempre me mandou calar a boca dizendo que tinha que se concentrar. Desconfio que ele é um fulano subversivo, desses que a polícia anda à procura, ou um desses sujeitos que assaltam motoristas de táxi para roubar. Aposto como estava armado. Fiquei desejando livrar-me dele.
- RELATO DO EMPREGADO DA DISCOTECA
"Ontem à noite ele chegou aqui acompanhado de uma morena, bem bonita por sinal, mas não lhe ligou nenhuma. Passou o tempo todo olhando para tudo o que era mulher que chegava. Quando entrou uma loira de vestido colante, chamou-me, queria saber quem era. Como eu disse que não conhecia, não teve dúvidas: foi até à mesa dela puxar conversa. Eu disfarcei e passei perto e só pude ouvir que ela marcava um encontro às 9 horas da manhã, bem nas barbas do seu acompanhante! Sujeito peitudo! Eu também dou as minhas voltinhas mas, essa foi demais...
- RELATO DO PORTEIRO DO EDIFÍCIO
"Ele não é muito certo da bola, não. Às vezes cumprimenta, às vezes finge que não vê ninguém. As conversas dele a gente não entende. É parecido com um parente meu que enlouqueceu. Esta manhã chegou até a falar sozinho. Eu dei bom dia e ele olhou-me com um ar estranho e disse que tudo no mundo era relativo, que as palavras não eram iguais para todos, nem as pessoas. deu-me um puxão na gola e apontou para uma senhora que passava e disse que, cada um que olhava para ela via uma coisa diferente. Disse também que, quando ele pintava um quadro, aquilo é que era realidade. Dava risadas. Está na cara que ele é lunático.
- RELATO DA MULHER A DIAS
"Ele anda sempre com um ar misterioso. Os quadros que ele pinta a gente não entende. Quando ele chegou esta manhã, olhou-me meio enviesado e eu tive o pressentimento de que ia acontecer alguma coisa ruim. Pouco depois, chegou a moça loira. Ela perguntou-me onde é que ele se encontrava e eu disse. Daí a pouco eu ouvi-a gritar e acudi correndo. Abri a porta de repente e, ele estava com uma cara furiosa olhando para ela, cheio de ódio. Ela estava atirada para o divã, e no chão tinha uma faca. E eu saí gritando: Assassino! Assassino!
- RELATO DO MIGUEL
"Eu dedico-me à pintura de corpo e alma. O resto não tem importância. Há meses que quero pintar uma Madona do século XX, mas não encontro uma modelo adequada, que encare a beleza, a pureza e o sofrimento que eu quero retratar.
Ontem, uma amiga telefonou-me dizendo que tinha encontrado a modelo que eu procurava e propôs um encontro na discoteca que ela frequentava. Eu estava ansioso por vê-la. Quando ela chegou, fiquei fascinado: era exactamente o que eu queria. Não tive dúvidas: fui até à mesa dela, apresentei-me e pedi para ela posar para mim. Ela aceitou e marcámos um encontro, no atelier, às 9 horas da manhã. Eu nem dormi como devia ser esta noite. Levantei-me ansioso, louco para começar o quadro, nem podia tomar o pequeno almoço de tão entusiasmado.
"No táxi comecei a fazer um esboço, pensando nos ângulos da figura, no jogo de luz e sombra, na textura, nos matizes...
"Quando entrei no edifício eu ia a cantar baixinho... O porteiro falou comigo e eu nem tinha prestado atenção. Aí eu perguntei: O que foi? E ele disse: "Bom dia. Nada mais do que bom dia". Ele não sabia o que aquele dia significava para mim, sonhos, fantasias, aspirações, tudo iria tornar-se realidade, enfim, com a execução daquele quadro. Eu tentei explicar-lhe. Disse-lhe que a verdade era relativa, que cada pessoa vê a mesma coisa de modos diferentes.
"Quando eu pinto um quadro aquilo é a minha realidade. Ele chamou-me lunático. Eu dei uma risada e disse: Está aí a prova do que eu disse; o lunático que vê em mim, não existe.
Quando eu subia as escadas, a mulher a dias veio espreitar-me. Não gosto daquela velha mexeriqueira.
"Entrei no atelier e comecei a preparar a tela e as tintas. Quando eu estava a limpar a paleta com uma faca, a campainha tocou. Abri a porta e a moça entrou. Ela estava com o mesmo vestido da véspera e explicou que passara a noite em claro, numa festa.
"Eu pedi que se sentasse no lugar indicado e que olhasse para o alto... que imaginasse inocentes sofrendo... que...
"Aí ela enleou-me o pescoço com os braços e disse que eu era simpático... Eu afastei-lhe os braços e perguntei se ela tinha bebido. Ela disse que sim, que a festa tinha estado óptima, que foi pena eu não ter estado lá, que ela sentiu a minha falta, que gostava de mim. Quando me enlaçou de novo, eu empurrei-a e ela caiu no divã e gritou.
Nesse instante a mulher a dias entrou e saiu berrando: Assassino! Assassino!
A loira levantou-se e foi-se embora chamando-me idiota.
"A minha madona..."

18 de abril de 2009

Lenda da noite de S. Silvestre

Lendas de Portugal segundo Gentil Marques.
Conta-se que, há muitos, muitos anos, existia em certo local do Oceano Atlântico o mais maravilhoso de todos os países do mundo: a Atlântida.
Segundo a narrativa de Platão, a Atlântida que coubera inicialmente em partilha a Poséidon, devido aos amores deste deus com a mortal Clito, foi depois dividida pelos dez filhos de ambos. Destes passaram aos seus descendentes até que os seus reis tiveram a ideia de conquistar o mundo.
Diz-se mesmo que o último desses reis chegou a desafiar os Céus.
- Sim! Que podem os Céus contra nós?... Que pode o mundo contra nós, que somos os reis da Atlântida? Nós temos o poder dos deuses!
E conforme se diz também, nesse instante o rei escutou uma voz que ecoava dentro de si próprio e lhe dizia:
- Enganas-te! Não há homem algum que tenha o poder de Deus!
Espantado, intrigado e furioso, o rei da Atlântida olhou em redor de si sem nada ver.
- Quem fala? Quem se atreve a erguer a voz na minha presença, sem me pedir autorização para tal?
- É Deus que te fala, mesquinho rei da Atlântida, homem frágil e meu servo.
- Deus? Mas qual dos deuses?
- O único Deus que existe!... O criador da vida e da morte!
- Pois, a esse tal deus que me fala, seja ele qual for, desafio-o a que se oponha aos meus planos!... Eu não tenho medo... Eu sou o rei da Atlântida, o mais poderoso império de todos os impérios!... Tenho fortuna e forças suficientes para esmagar o mundo! E para começar vou submeter e esmagar o poder de Atenas!
- Atreve-te rei tolo e ambicioso... atreve-te e verás o resultado!...
Não se intimidou o rei da Atlântida. Mandou que se formassem os seus exércitos prontos para a grande batalha.
- Se vencermos o poder de Atenas, o mundo será nosso! Ninguém mais se atreverá a erguer-se na nossa frente!... Nem os próprios deuses ousarão tal... Portanto, guerreiros que me escutais, segui os vossos chefes, tal como os vossos chefes me seguirão, e a vitória será nossa!
Assim se travou - conforme nos conta ainda Platão - a espantosa batalha entre os povos do Ocidente das Colunas de Hércules, comandados pelo rei da Atlântida, e os povos de Leste chefiados por Atenas.
No meio da refrega, porém, surgiu a mesma voz que se sobrepôs ao fragor da luta:
- A vitória será de Atenas para que os reis da Atlântida sofram uma terrível lição. Atlântida desaparecerá para sempre e o seu nome há-de ficar, pelos séculos dos séculos, como o símbolo da grandeza destruída por sua própria culpa.
E na verdade os guerreiros da Atlântida foram derrotados pelos guerreiros de Atenas. E à derrota sucederam-se terríveis terramotos e fantásticas inundações. Num só dia e numa só noite, o que fora o esplendoroso e incomparável reino da Atlântida desapareceu por completo, engolido pelas águas do Oceano.

Muitíssimos anos passaram sobre esse dia...
Até que, certa vez, bastantes séculos depois da morte de Jesus Cristo, sua Mãe, Virgem Maria, debruçava-se lá dos Céus, sobre o Oceano que se estendia a seus pés. E, junto dela, passou um santo ainda jovem. Vendo-a tão absorta, o Santo parou e perguntou:
- Senhora, que estais a ver com tanto interesse?...
A Senhora Mãe de Jesus ergueu o seu olhar doce:
- Ah! Sois vós, Silvestre?
- Sou eu sim, Senhora... Perdoai-me mas vinha à vossa procura... à procura dos vossos conselhos...
- Que vos preocupa, Silvestre?
- Senhora, esta é a minha noite...
- Bem sei... é a última noite do ano.
- É por isso mesmo, Senhora... É por isso mesmo que vos desejo falar.
- Eu... Eu tenho pensado... enfim... acho que esta última noite do ano... a minha noite... devia significar para os homens, lá em baixo, mais alguma coisa do que tem significado até agora...
Uma interrogação muda transpareceu no rosto da Senhora dos Céus. E o Santo ajuntou, já mais à vontade:
- Pois bem, Senhora... se me permitis... julgo que esta noite poderia marcar uma fronteira entre o passado e o futuro... Ou seja, poderia servir para os homens se arrependerem dos erros cometidos e prometerem a si próprios esperança de melhores dias.
A Virgem aprovou com um leve inclinar de cabeça.
- Acho muito boa ideia...
E logo entusiasmando-se mais, São Silvestre completou o seu pensamento:
- E vem a propósito, não achais, Senhora? Antes realiza-se a festa do Natal, a festa de Jesus, Vosso Filho... Depois... bem, depois viria a festa do Fim do Ano... a festa da minha noite, como chamada de atenção à consciência dos homens.
- Dizeis bem, Silvestre!... Cada vez mais, a consciência dos homens precisa de ser vigiada. Ainda há pouco, quando chegaste, estava eu a olhar lá para baixo...
- Eu bem vi, Senhora... E parecíeis tão triste...
Houve um breve silêncio. Depois, a Virgem perguntou:
- Sabeis o que estava a observar nesse momento, Silvestre?
- Não sei, Senhora, não...
- Pois estava a relembrar o fausto e a beleza maravilhosa dessa ilha chamada Atlântida, que Deus fez afundar para castigo dos pecados sem fim dos seus habitantes e como aviso à soberba dos homens.
Dos olhos da Senhora tombaram lágrimas puras de tristeza.
- Mas, afinal, eles não se emendaram!... Silvestre, eles não se emendaram!
Emocionado, o Santo olhou-a melhor.
- Chorais, Senhora?
- É o coração que chora nos meus olhos, Silvestre! São lágrimas por misericórdia dos homens!
Num sobressalto de júbilo, São Silvestre, exclamou:
- Não são apenas lágrimas, Senhora... São pérolas... São autênticas pérolas que caem dos vossos olhos!...
E, nesse mesmo instante, tal como se perpetua na tradição popular, uma das lágrimas de Nossa Senhora deslizou lá dos Céus e foi cair sobre o próprio local onde desaparecera a maravilhosa Atlântida.
- Senhora, olhai!... Olhai!... Uma das vossas lágrimas caiu no oceano... E que bem fica ali no meio das águas... Uma pérola, uma pérola verdadeira, Senhora, a crescer, a tornar-se cada vez maior e mais bela... A Pérola do Atlântico!
E, deste modo, tal como se enraizou na alma do povo madeirense, nasceu a ilha da Madeira, e daí lhe vem o sobrenome.
Diziam os antigos que, noutros tempos, na noite de São Silvestre, quando batiam as badaladas da meia noite, erguia-se nos ares a visão surpreendente de um cortejo de maravilha, cheio de luz e de cores fantásticas e que deixava atrás de si um perfume estonteante...
No rodopio dos anos, este cortejo mágico da meia-noite desapareceu. Mas em seu lugar os homens criaram as festas de fim de ano na Madeira - a já internacionalmente famosa Noite de São Silvestre com o seu fogo de artifício que mais não é do que a evocação dos fascinantes sonhos antigos...

Solidão

- Solidão não é falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo ... isso é carência.
- Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar... isso é saudade.
- Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes, para realinhar os pensamentos... isso é equilíbrio.
- Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente para que revejamos a nossa vida... isso é um princípio da natureza.
- Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado... isso é circunstância.
- Solidão é muito mais do que isto:

"Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos, em vão, pela nossa alma"

Francisco Buarque de Holanda

13 de março de 2009

XIII - Morte

Hoje parece-me o dia indicado para falar do Arcano Maior que tem o número 13, num dia 13, sexta feira.
Esta carta que aqui apresento pertence ao Tarot Comparativo de Valerie Sim publicado por Lo Scarabeo em 2003.
No Tarot de Marselha, esta carta não tem nenhum nome escrito e há mesmo baralhos em que esta carta é denominada por "Arcano sem Nome".
Há uma mensagem transmitida por esta carta que se torna bem clara: A morte atinge a todos, realmente, tanto a reis como a plebeus. Daí os judeus enterrarem todos do mesmo modo, com uma mortalha branca e num caixão simples de pinho.
Ao contrário do que muita gente acredita, a carta da Morte representa o momento preciso em que desistimos de velhas máscaras e permitimos que a transformação se realize. É, portanto, um tempo de mudança, pode representar o medo da mudança.
No seu aspecto mais positivo podemos ver aqui, um afastamento de velhos hábitos de rigidez para que consiga surgir uma nova vida.
Negativamente há um medo anormal da morte física, um apego a velhos hábitos.
Exercício de Meditação: - Use este exercício quando estiver a precisar de eliminar alguma coisa da sua vida, as suas ideias, os seus pontos de vista, alguma actividade ou sentimento.
Escolha um sítio para fazer esta visualização onde se sinta confortável e inicie algumas inspirações para se sentir mais relaxado. Diante de si coloque a carta da Morte. Pode, se quiser, também acender uma vela branca. Permaneça durante uns minutos a olhar, atentamente para a carta. Feche os olhos, concentre-se na figura e nas energias que ela lhe pode activar. Lembre-se do que deseja eliminar na sua vida e, durante uns minutos, concentre-se na palavra "Transformação" ou eliminação". Repita-a mentalmente várias vezes. Visualize agora uma ilha. Esta ilha tem muitas árvores mas nela reina apenas um enorme silêncio; este silêncio transmite-lhe uma imensa paz.
À sua frente está a Morte. Apesar do seu aspecto, não sente medo ou receio. Ela traz consigo a foice da renovação. Não hesite e peça-lhe ajuda... fale do que pretende transformar ou eliminar na sua vida, entregue-lhe tudo o que guarda dentro de si.
Visualize agora diante de si um lugar nesse deserto onde estão várias portas bem grandes. A morte convida-o a fechar a porta que pretende, do outro lado está o que pretende eliminar. Feche-a para que depois a morte possa eliminar tudo com a sua foice. Muitas portas estão agora diante de si, basta abri-las. Sente-se agora mais leve e com mais energia.
Agradeça à morte e despeça-se dela. Concentre-se agora novamente na sua respiração, conte de três a um e abra os olhos.
NOTA: - Faça este exercício durante três dias seguidos.
Afirmações (conselhos) para a carta A Morte:- Permito que ocorram as transformações necessárias para o meu crescimento interior.
- Eu tenho o poder de mudar.
- Eu destruo os egos negativos.
- Eu sou a libertação.

12 de março de 2009

Lenda do sinal do céu

Esta imagem do Castelo de Alenquer foi recolhida na net.
Lendas de Portugal segundo Gentil Marques.
D Gualdim, na semiobscuridade da sua cela, encontrava-se em profunda meditação. O seu corpo recuperava da tensão em que tinha andado durante a difícil conquista de Lisboa. De joelhos em terra, com o seu rosto escondido nas mãos, o corpo levemente inclinado para a frente, parecia a verdadeira estátua da oração.
Mas, subitamente, os seus sentidos entraram em alerta. D. Gualdim estremeceu pois teve a sensação de que não estava só e, retirando as mão do rosto, ergueu-se lentamente, apercebendo-se, apesar da penumbra da presença da figura magra e alta do superior do convento.
O superior, numa voz baixa e pausada, elucidou:
- Perdoai irmão, não queria interromper as vossas orações mas... tenho algo de importante a dizer-vos.
- Falai sem receio. Estava apenas dando graças a Deus pela bênção deste silêncio depois do tremendo inferno que foi a conquista de Lisboa.
- A minha presença aqui deve-se a um desejo do nosso rei D. Afonso Henriques. O sangue ferve-lhe nas veias e quer sair de novo a campo.
- Quando precisa el-rei de mim?
- Amanhã ao romper do dia.
- Lá estarei com os meus homens.
E, silenciosamente, como chegar, o superior saiu da cela de D. Gualdim.
Só, este ficou um momento imóvel, olhando um ponto vago no espaço. Depois, os seus joelhos voltaram a roçar a terra, o seu busto esguio tornou a encurvar-se e as suas mãos, mais uma vez, cobriram o seu rosto, de olhar brilhante e feições vincadas.
Em volta, o silêncio continuou silêncio e a penumbra, penumbra.

No horizonte, uma nesga de luz impôs-se às trevas da noite. Madrugada fresca de S. João. Em massa ainda indefinida caminhava o exército lusitano. D. Afonso Henriques mandou fazer alto.
- Aproximai-vos D. Guadim!
- Dizei, Senhor.
- Vou deixar aqui o exército sob as ordens de D. Ordonho. Preciso, primeiramente de fazer um reconhecimento.
- Vós? - admirou-se o cavaleiro - Será perigoso! Ficai que eu me sentirei honrado se puder fazer esse reconhecimento em vosso lugar!
Franziu o rei as sobrancelhas espessas.
- Disse-vos que desejo fazer um reconhecimento. E não lego em ninguém esse meu desejo! Sairei do campo disfarçado e acompanhado apenas por vós, d: Gualdim...
- É grande a honra que me concedeis, Senhor! Tão grande como a responsabilidade de vos trazer, de novo, são e salvo.
- Nada temeis! Quero apenas chegar junto do castelo dos mouros antes que o sol rompa. Preciso de descer para Alcácer, e não quero deixar mal defendidas as nossas costas, com focos que poderão perder-nos. Este castelo terá de ser nosso. Mas preciso saber se chegou a hora de o tomar. Aprontai-vos e segui-me... Tenho pressa!

A areia ensaibrada rangeu sob o metal do calçado do rei português. D. Afonso Henriques olhava o castelo, sobranceiro e sereno. Tudo parecia calmo à volta.
- Parece até um castelo de mouros encantados! Não se vê ninguém...
- Custa a crer que nem tenham vigias!
- Quem sabe?
- Cuidado, Senhor! Descobri além um vulto a mover-se...
O rei de Portugal franziu as sobrancelhas, numa concentração, enquanto dizia como se falasse consigo próprio:
- Vim aqui para saber se a hora era propícia à conquista deste castelo. Mandai-me um sinal do Céu ó Deus Todo-Poderoso! Mandai-me um sinal!
D. Gualdim guardara silêncio. Mas vendo que o vulto corria agora direito a eles, preveniu:
- Descobriram-nos! Vão dar o alarme!
O rei semicerrou os olhos, numa tentativa de ver melhor na meia-luz da madrugada nascente.
- Reparai bem, D. Gualdim! O vulto que corre para nós... é o de um cão enorme!
O cavaleiro-monge concentro os seus sentidos nesse vulto que corria direito a eles e se distinguia já perfeitamente.
- Assim é, meu Senhor! Mas nunca vi um alão (nome que se dava antigamente aos cães de caça) tão forte e grande! Teremos de o matar antes que dê o alarme...
Já o cão se encaminhava em direcção ao rei de Portugal. D. Gualdim gritou quase ao mesmo tempo que puxava da espada:
- Cuidado, Senhor!
Mas D. Afonso Henriques suspendeu-lhe o gesto. O alão mal chegou junto do rei começara a lamber-lhe as mãos, dando saltos de imensa e estranha alegria. D. Afonso Henriques sorriu:
- Reparai, D. Gualdim: o alão rende-me vassalagem! Recebe-me como a um libertador, ou como se me conhecesse há muito... Deve ser este o sinal do Céu! O avanço das nossas tropas far-se-à imediatamente e o castelo será nosso. O alão o quer!
Como num eco, D. Gualdim repetiu:
- O alão quer!

E desta frase lendária que ficou para todos os tempos, resultou a conquista de mais uma praça e o nome da terra que hoje se chama Alenquer. Confirmando o que narra a lenda, as armas da vila de Alenquer são: em campo de prata, um cão grande, pardo, preso a uma árvore com grilhão de ouro.

9 de março de 2009

XII - Enforcado

Esta carta pertence ao baralho de Tarot Ancestral Path de Julie Cuccia-Wats publicado por US Games em 1996.
Quando se pensa na carta do Enforcado, vem-nos logo à ideia a sensação de imobilidade que pode ser vivida, por exemplo, durante uma doença (esta é uma situação que a carta pode representar). Jung dizia acerca desta carta "Ficar pendurado pode (...) até ser um hanging on positivo para avaliação que, por um lado, significa uma dificuldade aparentemente insuperável mas, por outro, representa uma situação única que requer o maior esforço, e através do qual a humanidade é chamada à acção"
Esta carta pode mostrar-nos uma longa fase que nos irá levar à necessidade de encontrar uma situação totalmente nova. Se reflectirmos tempo suficiente sobre um problema apenas a calma e essa reflexão paciente nos irá fazer entender onde errámos ou do que desistimos.
Com esta carta sentimo-nos presos a uma situação que não pode continuar e faz-nos ver a necessidade de mudar o nosso modo de pensar para conseguirmos compreender o que há-de mudar para que a situação se venha a resolver.
Os alquimistas pensavam que, para libertar a energia dos desejos e transformá-la em energia espiritual deviam colocar-se de cabeça para baixo pois assim a energia dos genitais era empurrada para o cérebro. Se repararmos numa carta do enforcado tradicional, a sua expressão é de paz e compreensão.
Podemos dizer assim que o Dependurado ou Enforcado representa portanto, espera, um sacrifício voluntário, provas que têm que ser ultrapassadas antes de se iniciar um novo ciclo. Eu achei genial a ideia de Julia Cuccia-Wats ao representar esta carta do modo como eu aqui a coloquei.
Não existe meditação para a carta do Enforcado porque ela é a própria meditação.
Afirmações: - Aceito que nem sempre atinjo os resultados que quero sem fazer sacrifícios, por isso uso de todas as minhas forças e energias.
- Eu sou vontade.
- Eu sei esperar o tempo certo.
- Eu conheço os meus limites e aceito-os.

8 de fevereiro de 2009

Precisa-se de matéria prima para construir um país



Eduardo Prado Coelho, antes de falecer em 25 de Agosto de 2007, deixou-nos esta reflexão sobre o país em que nascemos e em que vivemos:
Precisa-se de matéria-prima para construir um país (Eduardo Prado Coelho in Público)

A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres.
Agora dizem que Sócrates não serve.
E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada.
Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates.
O problema está em nós. Nós como povo.
Nós como matéria prima de um país.
Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro. Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais.
Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderiam ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO.
Pertenço a um país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos... e para eles mesmos.
Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos.
Pertenço a um país:
- Onde a falta de pontualidade é um hábito;
- Onde os directores de empresas não valorizam o capital humano.
- Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e, depois, reclamam do governo por não limpar os esgotos.
- Onde as pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros.
- Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é "muito chato ter que ler") e não há consciência nem memória política, histórica nem económica.
- Onde os nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média e beneficiar alguns.
Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podem ser "compradas", sem se fazer qualquer exame.
- Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não lhe dar o lugar.
- Um país onde a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão.
- Um país onde fazemos muitas coisas erradas mas estamos sempre a criticar os nossos governantes.
Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado.
Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas.
Não. Não. Não. Já basta.
Como "matéria prima" de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que o nosso país precisa.
Esses defeitos, essa "CHICO-ESPERTICE PORTUGUESA" congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até se converter em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente má, porque todos eles são portugueses como nós, ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não noutra parte...
Fico triste.
Porque, ainda que Sócrates se fosse embora hoje, o próximo que o suceder terá que continuar a trabalhar com a mesma matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos.
E não poderá fazer nada...
Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá.
Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, nem serve Sócrates e nem servirá o que vier.
Qual é a alternativa?
Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror?
Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa "outra coisa" não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados... igualmente abusados!
É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda...
Não esperemos acender uma vela a todos os santos a ver se nos mandam um messias.
Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer.
Está muito claro... Somos nós que temos que mudar.
Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a acontecer-nos:
Desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e, francamente, somos tolerantes com o fracasso.
É a indústria da desculpa e da estupidez.
Agora, depois desta mensagem, francamente, decidi procurar o responsável, não para o castigar, mas para lhe exigir (sim, exigir) que melhore o seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido.
Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO DE QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO. AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO NOUTRO LADO.

E você, o que pensa?... MEDITE!

28 de dezembro de 2008

Lenda da que mal pica

Lendas de Portugal segundo Gentil Marques
Chegara o Inverno. E com ele o frio. E com ele a desolação. Em certa zona das Beiras, lá para o sul de Castelo Branco, havia um pequeno povoado onde vivia Aninhas, uma rapariguinha de ar aciganado, que punha tentações nos olhos dos homens.
Ora, uma noite, parou ali um emproado fidalgo, que se dirigiu sem demora, ao chefe do povoado.
- Maldito frio!... Acendei-me a lareira, depressa!... Depressa!... Não ouvis, velho imbecil?
Mas o outro era velho, de facto. E a muita idade não lhe consentia pressas...
- Vou já meu senhor, vou já... Nós também temos muito frio...
Altivo, arrogante, o fidalgo olhou o velho de alto a baixo, num ar de soberano desdém.
- Que me interessa o vosso frio? Quero apenas que se cumpram as minhas ordens, nada mais... Compreendeis? Sou eu o dono de todas estas terras!
E quedou-se, soberbo, no meio da sala.
Foi então que, atraída pelo volume e pela força das palavras, surgiu Aninhas, a neta do velho chefe do povoado.
- Deixe lá, avozinho. Eu vou tratar de tudo...
E sem olhar o outro sequer, acrescentou num ar de mal contida ironia.
- Este senhor fidalgo, certamente, vem muito apressado... e muito friorento... Coitadinho!
O visitante voltou-se para ela, surpreendido e desconfiado.
- Onde estavas escondida?... Ainda não te tinha visto...
Avançou, sorrindo, a tentar ser lisonjeiro.
- Que lindo palminho de cara tu tens...
E quis fazer-lhe uma festa. Mas a rapariga fugiu-lhe habilmente.
- Tire s mãos, senhor fidalgo... Olhe que pode sujá-las na minha cara...
Ele disfarçou a contrariedade com uma risada.
- Já vejo que és de força... Mas isso agrada-me, pequena... Estou habituado a domesticar as minhas éguas bravas...
Aninhas fingiu que não ouvia. Limitou-se a apontar para as chamas que começavam a crepitar.
- Pronto... A lareira já está acesa, senhor fidalgo... Pode chegar-se, para se aquecer...
Esquivou-se de novo à aproximação dele, e aconselhou, num tom meio sério, meio gaiato:
- Cautela com o fogo, senhor fidalgo, cautela...
Espicaçado no seu brio, o altivo e desdenhoso fidalgo deixou-se ficar por ali mais uns dias, cortejando a bela e esquiva Aninhas.
- Posso fazer de ti uma rapariga rica e feliz...
A rapariga riu-se:
- Ora, feliz já eu sou... E rica não preciso de o ser...
E ele aproximou-se mais e segredou-lhe:
- E se eu te raptasse... se fugíssemos para o meu palácio em Lisboa?...
Aninhas pôs-se subitamente séria.
- Creio que o melhor é não tentar, senhor fidalgo...
O fidalgo empertigou-se:
- Falarei então com o teu avô... Ele será mais compreensivo... e mais esperto do que tu, concerteza!
A rapariga encolheu os ombros. De descrença, ou de indiferença mas, o fidalgo não hesitou e abalou, resoluto, decidido a levar por diante a sua vontade.
Enganou-se porém, redondamente. A sua proposta desagradou por completo ao velho chefe do povoado, que chegou mesmo a irritar-se.
- Como? Pois o senhor atreve-se? Não, nós não somos dessa gente que o senhor julga... Oiça bem: a minha neta só casará com quem ela quiser... E eu não a troco, senhor fidalgo ou lá o que é, eu não a troco por todo o oiro do mundo.
Arfando de emoção por ter ido tão longe nas suas palavras, o velho chefe terminou com um convite bem explícito:
- Porque não se vai embora daqui, senhor fidalgo?... Quanto mais depressa melhor!
O outro voltou a encher-se de soberba ofendida. Endireitou-se, muito solene e a sua voz esganiçou-se, de raiva:
- Pois então escuta, velho idiota: hoje mesmo, tu e a tua neta sereis expulsos destas terras, que são minhas... Vós é que vos ireis embora! Não vos quero ver mais na minha frente!
O velho percebeu que se excedera e que ficaria a perder pois o outro, além de mais forte e poderoso, já só tinha pensamentos de vingança.
Num reflexo de medo, exclamou com voz trémula:
- Oh, senhor!... Que será da minha neta e de mim? Para onde iremos nós? Não leveis tão longe a vossa crueldade.
Ao fidalgo enfurecido, tudo lhe parecia insulto e, ao ouvir a palavra crueldade, a sua fúria cresceu e deu um safanão no velho que caiu por terra mas, não contente com isso e para poder saciar a sua raiva ainda acertou nas costas do velho com o seu chicote.
Aninhas, atraída pelo barulho entrou e, ao ver esta cena, abriu os olhos de espanto, de piedade mas, ao mesmo tempo de ódio.
- Ah, fidalgo vilão, haveis de pagar caro a vossa ruindade!
Mas, desta vez, o fidalgo voltou-lhe as costas sem a olhar sequer. E as suas ordens soaram enérgicas e definitivas:
- Quero que esta gente abandone as minhas terras... hoje mesmo!... O velho, a rapariga e todos os seus companheiros. Não os quero ver mais aqui!... E se for necessário, empregar a força para os fazer partir.
Não foi necessário usar de violência. Todos abandonaram as velhas casas, nesse mesmo dia... Andaram muito, muito, segundo se diz, passaram fome e frio mas não renunciaram.
Um dia chegaram perto da Ermida de Nossa Senhora das Neves, estavam exaustos e, de comum acordo, resolveram ficar ali porém, outra calamidade lhes surgiu: uma praga de formigas!
O velho chefe, cada vez mais adoentado, foi o primeiro a confessar o seu desânimo.
- Oh, avozinho, não perca a fé!... Deixe lá. Temos de reagir, é preciso continuar a luta!
E voltando-se para os outros:
- Não podemos ficar aqui... Temos que procurar outro local. Desta vez, não seremos nós a procurar o local que nos interessa... Deixemos essa missão às nossas vaquinhas... Onde elas se sentirem bem, aí nós ficaremos para sempre!
Ao soarem as avé-marias na ermidinha distante, soltaram as vacas e deixaram-nas ir, à vontade pelos campos fora...
Conta-se que foi Aninhas a primeira a chegar ao local onde as vacas pastavam tranquilamente.
- Venham todos! Isto é magnífico... Parece um céu aberto!... Vejam como as nossas vaquinhas estão contentes... Sabem porquê? Porque aqui as formigas são bem poucas... E qualquer destas formigas, como podem ver, mal pica...
No meu do contentamento geral, a voz do velho chefe, que todos respeitavam, ergueu-se segura e profética:
- Pois já que assim é... esta nossa terra há-de ficar a chamar-se Malpica!

E desse modo nasceu na Lenda e passou à História a pitoresca e bonita aldeia da Beira baixa, que primeiramente se chamou apenas Malpica - e agora e chama Malpica do Tejo.
E consta ainda, na memória do povo, que o tal fidalgo atrevido e enfatuado veio a acabar de morte horrorosa, mordido e envenenado por umas formigas terríveis, que ninguém chegou a saber de onde tinham vindo...