10 de julho de 2008

Lisboa



Lisboa à luz dos seus Arcanos
(Texto da autoria do Dr. Olímpio Gonçalves, publicado originalmente na revista oficial da Comunidade Portuguesa de Eubiose “Graal” em 1982)
Lisboa é, para nós, a cidade da velha Mãe Lusina, a companheira do deus Lug, a grande deusa dos Ligures e dos Celtas, a Boa Lusi ou Lusina, a Lusibona, a Lisibona. Falar de Lisboa é falar da capital da região do Lug, logo, da Lugcitânia, pátria dos Lugsignan, os Lusitanos.
Lisboa está intimamente associada ao velho culto do deus Lug, esse deus supremo do panteão Lígure que, alem de resistir à invasão dos Celtas, acabou por assimilar os ocupantes recém-chegados, legando-lhes os seus lugares (lug+ara, altar de lug) de culto, as suas montanhas, rios e pedras sagrdas. Lug, deus tão antigo e poderosamente enraizado, que ainda hoje lhe surpreendemos o alento e os vestígios na toponímia das Gálias e em toda a parte da Península Ibérica onde os árabes não impuseram a sua presença e cultura.
São as marcas ideléveis da presença de Lug, os lugares “Lug”, como Logroño e Lugo, no caminho de peregrinação a Santiago e nos trilhos iniciáticos da história secreta da Península. Raízes ancestrais impregnando de mistério a cidade da boa deusa Lusi e do grande Lug, obreiro universal, demiurgo, mestre de artes e alquimista, músico, guerreiro e mago, o poderoso tutelar da Lusitânia que os Lígures e os Celtas transportaram consigo na sua marcha para o Sol, em direcção ao Ocidente, pela rota da Via Láctea e da estrela do Cão, nos confins da terra, as “finis-terrae”.
Lisboa, como todas as cidades de sete colinas, é considerada pela Tradição com uma urbe sagrada.
Na fisionomia do seu quotidiano, no silêncio ou no bulício do seu dia a dia nas ruas e nas praças, inscreve-se na perenidade de seu rosto a secreta história dos lusos, o seu presente, o devenir da sua grande missão diante do Mundo.
Na sua praça maior, vestíbulo de entrada para a metrópole mais ocidental da Europa e de saída milenar para os mares oceanos, propõe-nos, desde logo, a decifração dos enigmas que determinaram as gestas deste povo de marinheiros, Pelágios ou homens do mar, e de suas reminiscências atlantes.
O Terreiro do Paço, na disposição linear do seu talhe, no alinhamento das suas artérias, no ritmo geométrico da sua arcaria é a lâmpada de Aladin que franqueia a porta que nos conduz à gruta subterrânea, onde jazem os maravilhosos tesouros escondidos, até aqui, aos olhares profanos.
A Praça dos Arcos é o átrio que conduz ao santuário das sete colinas, o Templo da Sabedoria.
É como um enorme livro de pedra, onde a mensagem, embora críptica, pode ser lida e entendida, desde que interrogada na sagrada linguagem dos números e dos símbolos herméticos dos Arcanos de Thot.
O Livro de Thot, mais conhecido como Tarot é, como se sabe, constituído por 78 lâminas, originalmente de ouro fino, pertencendo 22 lâminas aos Arcanos Maiores, os esotéricos, e as restantes 56 aos chamados Arcanos Menores ou exotéricos.
Os 22 Arcanos Maiores, como o próprio nome indica, dão-nos a representação arcânica, arquetípica, de tudo quanto se pode conceber, de tudo quanto existe. Aplicando estes ideogramas simbólicos do Tarot e estabelecendo as correlações entre os 22 arcanos da série, segundo os cânones, eles revelam-nos as incógnitas dos mais complexos problemas.
Se observarmos sobre o ponto de vista estético, o Terreiro do Paço, logo verificamos que a expressão preponderante é a sua vasta, a sua profunda arcaria. Existe uma intencionalidade na disposição muito particular desses elemento que ultrapassa, sem dúvida, a simples função estrutural da sua arquitectura. Os edifícios laterais contêm 28 arcos, cada um, cuja soma é de 56, o que corresponde ao número de lâminas dos arcanos menores.
Na fachada principal, entre as Ruas do Ouro e da Prata, contamos, por outro lado, 22 arcos, 11 em cada direcção, a partir da Rua Augusta. Ora, 22 arcos correspondem exactamente ao número de lâminas dos Arcanos Maiores, os arcanos iniciáticos.
Se aplicarmos a cada arco o arcano que lhe corresponde, possuímos a chave interpretativa de um ciclo completo de manifestação: relativamente aos 56 arcanos, a manifestação profana, quanto aos 22 arcos frontais, entre as ruas do Ouro e da Prata, a realização oculta.
Na verdade, quem souber ler nos arcanos do Tarot pode decifrar no Terreiro Pombalino a história secreta de Portugal.
Deixaremos para outra oportunidade essa leitura.
Acontece que, na presciência das coisas, a urbanização pombalina inscreve a sua mensagem silenciosa numa síntese final dos 22 arcanos, que nos é dada pelas lâminas 18, 19 e 21. Porquê? Porque as principais artérias que partem do Terreiro do Paço são: A Rua Augusta, a Rua do Ouro e a Rua da Prata.
Quando dizemos artérias, aplicamos o termo próprio, pois é disso que se trata. As Ruas do Ouro e da Prata e a Rua Augusta representam o caduceu de Hermes, ou de Thot se quiserem, e como é sabido, o caduceu compõe-se de uma coluna central, em torno da qual sobem duas serpentes, uma dourada e outra prateada. Respectivamente, uma solar e outra lunar.
Estas serpentes representam e são as artérias pelas quais flui a energia serpentínea vital, desdobrada nos seus dois aspectos complementares, lunar, frio e passivo e solar, activo e quente.
Se nos lembrarmos que, na simbólica tradicional, o ouro expressa o Sol e a prata a Lua, torna-se claro que a Rua do Ouro corresponde ao aspecto solar do caduceu, a Rua da Prata ao aspecto lunar e que, finalmente, a Rua Augusta simboliza o bastão central, canal de fusão e síntese destas duas forças polares.
No Tarot, o arcano XVIII é o arcano da Lua, a lâmina XIX a do Sol e a XXI a “Augusta” ou Laurenta ou laureada, como podemos ver na figura que encima o arco central, figura coroada com os laureis dos augustos seres.
Façamos então, um breve bosquejo destes três arcanos.
Segundo Waite (autor do Tarot de que nos estamos a servir), o arcano da Lua representa a vida da imaginação e o sendeiro, entre as duas colunas, a saída para o desconhecido.
O sendeiro para o desconhecido está guardado pelas duas colunas, a fim de que não possa ser transposto se o temor não for vencido ou se não se dispuser do auxílio das forças ocultas para o empreendimento.
Nesta lâmina, as forças ocultas estão representadas pela lagosta que emerge do fundo das águas primordiais.
Um lobo e um cão ladram à Lua. O cão e o lobo simbolizam o dualismo das tendências ante o desconhecido. A natureza instintiva e selvagem do lobo tem de ser superada pela natureza transformada do cão, valente mas generoso na sua docilidade. Contudo, o cão ladra à Lua, pois também ele receia a saída para o desconhecido oculto, não obstante o rocio nocturno caia suavemente e o semblante da Lua inspire calma e serenidade.
Poderíamos resumir, de acordo com os vários cabalistas, a mensagem deste arcano do seguinte modo: “Aqueles que percorrem o caminho iluminado pela Lua, alcançam o reino das forças ocultas, quando a hora é chegada”.
Rua do Ouro, Lâmina XIX, o Arcano do Sol. O Sol significa Ordem, Luz, Razão.
Para S. Germain, este arcano é a luz Deslumbrante e a figura do Sol, na lâmina, o símbolo da Geração Universal. O menino montado no cavalo representa os filhos da Luz na sua progressão para a consciência cósmica, divina.
Waite descreve este arcano dizendo que o menino nú, montado no cavalo branco e empunhando um estandarte vermelho, simboliza a Grande Luz manifesta neste mundo e em trânsito para a sua gloriosa morada, uma vez ultrapassado este obstáculo que é o muro da vida sensitiva.
A chave deste simbolismos, na tradução cabalística, mostra-nos que o sol configurado na lâmina é o sol da consciência no Espírito, luz directa como antítese da luz reflexa, lunar, de arcano XVIII. É a luz simbolizada pela sol esplendoroso da Terra, a luz do Mundo Futuro que guia a aspiração do homem convertido no coração, simplicidade e pureza de um menino. A simplicidade e inocência da sabedoria, que porta em si o selo da Natureza e da Arte e cuja significação é o Mundo Restaurado.
Olhai para o Arco Triunfal da Rua Augusta. Sobrepujando o Arca vereis uma figura feminina coroando Apolo e Minerva. Essa dama, de feição e vestes romanas, hierática, está ornada com a coroa de louros na cabeça, é a laureada e tem a coroa dos magos.
Papus e Waite chama ao arcano XXI o “Mundo”. S. Germain a “Coroa dos Magos”, o Mestre JHS a “Laurenta”, mas qualquer que seja a designação, sintetiza a simbologia do Arcano.
Temos diante de nós uma grinalda de louros, os louros do Triunfo, da vitória. Em cada um dos quatro cantos da lâmina vêem-se as cabeças de um leão, de uma águia, de um touro e de um homem, as quatro figuras do apocalipse, simbolixando os quatro sopros do Espírito.
Para S. Germain, a grinalda é o emblema da cadeia mágica que une todos os seres, todas as coisas, todas as ideias num destino comum. No centro da grinalda vê-se a figura diáfana duma mulher nua. Representa a Grande-Mãe, a Virgem-Mãe ou Mãe-Universal segurando em cada mão um bastão ou ceptro, os ceptos do poder sobre forças vitais da Terra, solares e lunares.
Para Waite, esta lâmina simboliza o Cosmos, o Mundo na sua harmonia, assim como o mistério que ele contem. Representa alem disso, a consciência da Visa Divina reflectida no espírito que se conhece a si mesmo, a consciência da própria Visão. Waite afirma que este arcano caracteriza o Triunfo Maior, Final. É o estado do Mundo Restaurado quando a lei cíclica da manifestação tenha conduzido ao seu mais alto grau a perfeição e o acabamento.
Se o Sol é do ar e do fogo, se ele nos dá a imagem da luz, da claridade, da ordem geométrica, se encontramos no Sol a cadência musical, o colorido e a transparência mística dos vitrais dessas vastas arcas de pedra que são as catedrais, a ascese dos seus zimbórios e agulhas projectadas para o céu, na Lua vemos a terra e a água, a imagem do crepúsculo, a luz nocturna das criptas, o calor receptivo e misterioso do útero, da matriz fecunda.
Mas onde se aglutinam, desde o plano ideográfico dos símbolos preservados na baixa pombalina, essas forças primordiais, genesíacas, solares e lunares, sempre actuantes e, todavia, sempre ocultas, imponderáveis?
Até há bem pouco tempo, quem visitasse a Sé Patriarcal de Lisboa podia ver, numa das passagens do claustro, um negro corvo encarcerado numa grande gaiola. A presença, a todos os títulos insólita, de um corvo num lugar consagrado ao culto e à oração, a vetusta e nobre Catedral, deve-se, segundo as lendas, ao facto de ali se encontrarem, desde o séc. XII, as santas relíquias do mártir S. Vicente, um dos padroeiros de Lisboa.
No brasão da cidade figura a Nau, Barca ou Arca que transportou os restos mortais do Santo e que acabou por aportar à costa dos Algarves, mais precisamente ao promontório sacro, a ponta de Sagres. Na barca, como elementos heráldicos, figuram também dois corvos, os quais, segundo a tradição, acompanharam, como fieis guardiães atentos, os despojos do mártir na sua estranha odisseia até à Sé Patriarcal.
Refere Duarte Galvão, na sua “Crónica de D. Afonso Henriques”, que um dos corvos foi visto durante muitos e muitos anos a esvoaçar pela Igreja, por cima dos altares e da capela-mor onde o corvo estava sepultado. 
A lenda do corvo ligada à hagiografia de S. Vicente, tem paralelismo nos mitos e nas tradições sagradas dos povos mais antigos. O deus escandinavo Odin era frequentemente representado com dois corvos simbolizando o Espírito e a Memoria. Dizem que os corvos adejavam em torno da deusa Saga e lhe murmuravam ao ouvido o passado e o futuro.
De um modo geral encontramos o corvo representado nas Mitologias dos Maias e dos Celtas como sendo o mensageiro dos Deuses.
Jacques Duchausoy, no seu “Bestiário Divino”, afirma que, em Roma, o corvo jogava grande papel como ave profética e que está muito particularmente ligada à recordação do oráculo de Delfos, na Grécia. Segundo o mesmo autor, o sentido simbólico do corvo assimila-se, de resto, ao do cisne negro ou do ganso negro, todas as aves detentoras da sabedoria divina.
Marcel moreau lembra que foi o corvo quem, com o bico, trouxe o limo do fundo das águas para a superfície, o barro com que Deus fez a terra para os homens. Este corvo que imerge nas águas negras evoca-nos a Ideia das águas primordiais do Abismo, da Matriz Universal abrindo-se `centelha do raio da vida, do verbo criador. O corvo é um emblema solar.
Se é nas tradições sagradas, nas lendas e nos mitos arcaicos, na emblemática universal que havemos de encontrar o fio de Ariadne que nos conduz ao cerne mesmo da realidade profunda e “cache”, se cada símbolo encarna e consubstancia a sabedoria hermética, resta-nos perguntar ao acaso, que coincidência fortuita explicaria a presença desse elemento figurativo fundamental, tão cheio de conotações e sugestões simbólicas, ao lado da barca e no historial concreto da Sé Patriarcal!
Já de si tudo isto é deveras singular, mas que o corvo – emblema da sabedoria divina, ave profética e mensageira dos deuses, ave sagrada, totem do deus solar Lug – se denomine, em linguagem lígure, Lug ou Lu, não será este facto excepcionalmente significativo na trama secreta que subjaz à fenomenologia da História?
Segundo os ensinamentos de Henrique José de Sousa, nome profano do Mestre dos Eubiotas, e os anais mesmos da comunidade da Eubiose, há cerca de mil novecentos e poucos anos, pelo equinócio da Primavera, Jesus o Cristo, com a presença de José de Arimateia e uma vasta assembleia constituída pelos seus discípulos, reconstituiu, por imperativo cíclico, a Ordem do Santo Graal e empreendeu de novo, a disseminação do Rito do Santo Cálice.
Os seus insignes fundadores perfizeram o número cabalístico de 84 membros. Estes primitivos membros da Ordem do Santo Graal, em nova fase de expansão para o ciclo de Piscis, foram distribuídos em grupos de 12 por cada uma das sete Igrejas da Ásia. Falamos das Igrejas de Epheso, de Smyrna, de Pérgamo, de Thyatira, de Sardo, de Philadelphia e de Laodiceia, as que são referidas por João de Patmos no Livro do Apocalipse.
Pouco importa que as religiões institucionalizadas nada saibam acerca destes mistérios. Eles concernem à Igreja Invisível de Cristo e foram perpetuadas e transmitidas de geração em geração no escríneo secreto dos santuários iniciáticos dos discípulos da tradição Joanita ou de Melkitsedek; pouco importa que os colégios clericais, constituídos à sombra de uma doutrina dogmática, ignorem completamente que o Santo Graal, símile do Vaso autêntico, outrora cultuado pelos Iniciados da Atlântida, tenha peregrinado pela Igrejas do Oriente e que o Rito do Santo Graal tenha sido mantido nesses santuários cristãos.
Podemos asseverar que a Sagrada Taça, em obediência à lei cíclica que a tudo rege, continua o seu trajecto pela Via do Cão ou Sol de Sírius, conhecida pelos Eubiotas como o itinerário de IO, da deusa Ísis ou das, mónadas, e que a sua guarda foi transferida para certas Catedrais do Ocidente e se encontra hoje para lá do Atlântico.
De resto refira-se que o surto dos ideais cavalheirescos arturiano e carolíngeo tem o seu foco motivador, a sua base esotérica no culto secreto do Vaso Sagrado, nas Catedrais Europeias, pólo de irradicação espiritual e vínculo da Tradição de Melkitsedek. Foi este facto, desconhecido até hoje, que esteve, fundamentalmente, na origem da inspiração das alegorias romanescas e dos ideais transmitidos pela Demanda do Santo Graal e de todo o ciclo do graal da Idade Média.
Mas o que interessa realçar, retomando o assunto, é que para nossa satisfação, Senão reflexão, a Taça do Santo Graal esteve sob custódia, durante algumas décadas, na Sé Patriarcal...
Sim! Aqui mesmo, no Santuário Espiritual de Lisboa. E o seu Rito foi conservado e celebrado em segredo por uma plêiade de misteriosos e Sábios homens que pertenciam a uma Ordem Iniciática de que os historiadores nada sabem... a Ordem de Mariz.
E contudo, foi dessa Ordem que surgiu uma outra, a Ordem de Aviz, de todos conhecida, a que pertenceram o fundador do reino, D. Afonso Henriques e seus barões mais insignes.
Esta Ordem de Cavalaria sempre serviu de escudo exterior ou “cobertura” à de Mariz e agremiava os Membros dedicados ao culto de Melkitsedek, como, aliás, mais tarde, a de Cristo.
As cores das insígnias (cruz e fita) da Ordem de Mariz eram, e são, verde e vermelha; o verde que veio a usar a de Aviz e a vermelha que foi adoptada pela Ordem de Cristo... Será pura casualidade que as cores do pendão de Portugal sejam precisamente o verde e o vermelho?
Quanto ao mistério do Santo Graal, não anunciou o Merlin da Demanda que os tempos do Mundo Novo, o Mundo Restaurado, viriam com a chegada de um Ser predestinado que haveria de romper o encantamento do Santo Vaso?
Uma lenda oriental vaticina que o cálice será encontrado “quando se aproximarem os tempos de Shamballah”. Shamballah é a Mansão dos Eleitos, o lugar onde Melkitsedek dirige os destinos do Mundo, a Casa do Pai, nas palavras de Cristo (seu sumo-sacerdote), o lendário Reino do Preste João da tradição lusíada.
Muitos se lançaram no decurso dos séculos, em busca do Graal, mas só alguns poucos virtuosos e valorosos cavaleiros da Luz foram capazes de encontrar esse símbolo da Verdade. Foram os Percevais, os Galaazes.
A presença do corvo adeja ainda nas naves e no claustro da Sé. A sombra desta ave profética, símbolo da sabedoria divina, parece querer murmurar-nos ao ouvido, como outrora à deusa Saga, os sibilinos versos de Pessoa:

... Vem, Galaaz com pátria erguer de novo,
Mas já no auge da suprema prova,
A alma penitente do teu povo
À Eucaristia Nova.

Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido,
Excalibur do Fim, em jeito tal
Que sua luz ao mundo dividido
Revele o Santo Graal!

2 de julho de 2008

A Jornada do Louco


Achei esta história do caminho percorrido pelo Louco do tarot, muito interessante. Foi-me dada a conhecer num curso prático de tarot dado pela Paula Soveral e este texto foi feito pela mesma senhora com a colaboração de Teresa Cavaleiro. Então, a caminhada reza assim:
A jornada do Louco é uma metáfora através da vida. Cada carta dos Arcanos Maiores representa uma faceta dessa jornada - uma experiência que cada pessoa deve integrar para a realização do seu ser no Todo. As 22 descrições que se seguem são baseadas em palavras-chave pra cada uma das cartas dos Arcanos Maiores.
Começamos com o Louco. É uma carta de princípios (no sentido de começo ainda imanifestado. O Louco representa cada um de nós ao começarmos a nossa jornada de vida. Ele é Louco porque só uma alma simples tem a fé inocente para compreender, tal como o poeta, a jornada com todos os seus azares, dificuldades e recompensas.
No começo da viagem o Louco é uma criança, aberto e espontâneo. À nascença, o Louco, está no meio do seu próprio universo individual. Está estranhamente vazio (como num zero), mas imbuído do desejo de prosseguir a sua viagem e aprender. Esta façanha parece insensata (leviana) mas será que é mesmo?
No começo da jornada o Louco encontra imediatamente o Mago e a Papisa - as duas grandes forças em equilíbrio que fazem o mundo tal como o conhecemos. Tal como tudo o que existe no Universo, tudo tem o seu contrário. Não podemos pensar na noite, sem evocarmos de imediato, o conceito oposto, o dia. O Mago é criativo e activo, é a nossa tomada de consciência. A Papisa é o lado passivo, feminino, yin. O Mago e a Papisa são iguais em valor e importância. Cada um é necessário para haver equilíbrio.
à medida que vai crescendo, o Louco vai ficando cada vez mais alertado para o que o rodeia. Tal como a maior parte dos bebés primeiro reconhece a sua mãe - a mulher carinhosa, afectuosa que o nutre e cuida dele. Conhece também a mãe natureza que o cria. A Imperatriz representa o mundo da Natureza, das sensações, da fertilidade. As delícias das crianças na exploração de tudo em que mexem, cheiram ou saboreiam. A seguir o Louco encontra o Pai na figura do Imperador. É o representante da estrutura e da autoridade. Tal como o bebé que deixa os braços de sua mãe, ele aprende que há padrões para o seu mundo. A criança tem então uma nova experiência que lhe vem da descoberta da ordem. O Louco também se depara com as regras. Aprende que a sua vontade nem sempre é soberana e que há pessoas com autoridade para imporem regras. Estas restrições podem ser frustrantes, mas através da atitude persistente do Pai, o Louco começa a compreender os seus propósitos.
Agora, o Louco irá sair de casa e começar a sua educação formal. A criança é treinada em todas as práticas da sua sociedade e torna-se parte de uma cultura particular e do mundo. Aprende a identificar-se com um grupo e descobre um sentido de pertença.
O Louco confronta-se agora com dois novos desafios. Passa pela forte necessidade de união sexual com outra pessoa. Ele sente-se atraído para as relações mas também precisa decidir sobre as suas próprias crenças, os seus próprios valores. Começa a pôr em causa toda a informação que tem recebido e hesita entre aquilo que foi e o que está para vir.
Quando chega a adulto, o Louco já tem uma forte identidade e um certo domínio sobre si mesmo. Através da disciplina e da força de vontade desenvolveu um controlo interior que lhe permite ter êxito sobre o que o rodeia.
Mas os desafios continuam a surgir ao Louco e podem causar-lhe sofrimento ou desilusão. O Louco desenvolverá a coragem frente às adversidades mas também entenderá a importância da abordagem gentil e sedutora.
Mais tarde, o Louco é levado a colocar a eterna pergunta "Porquê?"e então, o Louco começa a fazer uma introspecção tentando compreender os seus sentimentos e motivações. O mundo sensual tem menos atracções e procura momentos de solidão, a seu tempo, procura um professor ou guia para o orientar e aconselhar.
Depois de muita introspecção o Louco começa a entender como tudo está interligado. Tem uma visão maravilhosa das suas formas e ciclos complexos. Às vezes as suas experiências parecem ser o trabalho do destino, pode iniciar-se um processo de mudança, podem surgir eventos que levem a um ponto de viragem. Neste momento, o Louco tem que decidir o que esta visão significa para ele. Olha para trás e assume a responsabilidade pelas suas acções passadas e faz correcções e ajustes para o futuro. As exigências da Justiça têm que ser cumpridas para que possa continuar a jornada. Neste momento tem que tomar decisões mas elas têm que ser analisadas com imparcialidade.
O Louco vai aperceber-se que nem tudo na vida são facilidades e, mais cedo ou mais tarde, vai encontrar a sua cruz. Ele aprende a render-se às suas experiências e não a contrariá-las.
Chegou então a ora de o Louco eliminar velhos hábitos, conceitos e preconceitos. Corta com os excessos porque aprecia as coisas básicas da vida. Desde a época em que abraçou o Eremita, o louco tem balançado num pêndulo emocional até perceber o equilíbrio estável da Temperança pois ao conhecer os extremos encontra a harmonia e aqui combinará todos os aspectos de si próprio para ter a harmonia.
Embora aparentemenete pareça não precisar de mais nada, como é corajoso, vai ao mais profundo do seu ser e então surge o encontro com o Diabo que não é mais que o nó da ignorância, a atracção pelo material. O Louco entende que do Diabo só conseguirá libertação através da destruição e da mudança brusca e isto pode ser uma experiência dolorosa mas que vale a pena viver, pois ao conseguir ultrapassá-la surge uma calma serena representada pela Estrela em que o Louco tem o seu coração aberto e o seu amor flui livremente.
Mas, esta calma perfeita pode ser estragada pela Lua que nos traz as ilusões, a fantasi, a imaginação. estas experiências podem fazer com que o Louco se sinta perdido e desorientado.
É a lucidez provocada pela luz e claridade do Sol que vai conseguir direccionar a imaginação do Louco que começa a sentir uma felicidade sem fim, capaz de realizar as suas grandezas.
O Louco renasceu e deverá fazer o Julgamento mais profundo da sua vida, deve descobrir aquilo para que anda neste mundo e receber aquilo que merece, nesta vida.
Então o Louco entrará novamente no Mundo mas, desta vez com uma compreensão muito mais integral, vivendo a sua vida com sentido, completando os seus projectos. É o fim da jornada do nosso Herói, descobriu o seu lugar no Mundo. Mas o Louco nunca pára de crescer e brevemente partirá para outra jornada para níveis mais elevados de compreensão e de consciência.

15 de junho de 2008

Astrologia


Aqui está outro tema que tenho gostado muito de investigar mas, como tenho encontrado gente que tem sempre opinião sobre tudo, atrevo-me a tentar transmitir aqui, aquilo que há alguns anos li num prefácio de um livro, que já não me lembro qual era, mas que achei muito interessante. 
Se não entender, por favor, não critique, em vez disso pesquise.
Se achar que é muito simples, que bom! Mas, de qualquer forma eu ainda lhe sugiro: pesquise.
Astrologia é uma pesquisa interminável. É o dia a dia que vai acontecendo e que se vai vivendo sem prestar atenção.
Passe a prestar atenção e a tentar perceber a sua linguagem nas entrelinhas. Mas, se de facto, desejar descobrir a beleza da Astrologia, então crie uma linguagem sua, que entre em sintonia directa com a linguagem do dia a dia. E não critique com limitação, mas use como base a construção, a observação, e a abertura de uma mente flexível que é capaz de desenvolver.
Não queira rotular a Astrologia com isto ou com aquilo; não se esqueça que ela é uma arte e a arte encerra em si todo o poder de criação e renovação.
Também não se sinta tão pequeno que não possa utilizar caminhos paralelos que existam, em seu auxílio com resultados vantajosos.

29 de abril de 2008

Uma história sobre Tarot



Andando a navegar aqui pela net, encontrei esta história que me chamou a atenção por 3 razões: Não vinha assinalada a autoria (com muita pena minha); focava um tema que eu adoro e finalmente, achei a história muito bonita e que tinha em si toda a essência do Tarot e dos Arcanos Maiores.
Vou-vos contar: A história chama-se "Uma história sobre Tarot"

Era uma vez um viajante que seguia o seu caminho livre e despreocupadamente, quando alguém lhe perguntou porque se tinha tornado um LOUCO. Ele parou por um segundo e resolveu contar sua história, não porque precisasse mas porque era uma criança que o abordava.

Um dia, sentado no meu escritório, fiquei a pensar no que me estava a acontecer, na insatisfação, no vazio e na falta de sentido que estava vivendo. Foi quando ouvi um estalo, algo como um raio, e me dei conta de que poderia fazer todas as modificações que estava precisando, pressentindo e que não tinha tido coragem, garra e determinação, até àquele momento. 

Dei-me conta de que eu era um MAGO e que precisava assumir os meus poderes de transformar, escolher, ousar e agir, senão eu seria um eterno infeliz.
Foi quando tive meu primeiro encontro com a SACERDOTISA e estabelecemos uma longa conversa. Percebi que tudo o que ela estava a dizer correspondia ao que eu pressentia, intuía e a que nunca tinha dado a devida atenção.

A SACERDOTISA aconselhou-me a procurar dentro de mim mesmo e tentar descobrir o que é que meu lado feminino, criativo e sensitivo estava a tentar mostrar-me. Foi aí que descobri a arte da minha IMPERATRIZ, tão poderosa quanto eu mesmo, descobri o meu lado artístico bem-humorado e expansivo, que gostaria de arriscar mais e que eu segurara e calara por tantos anos.
Junto com ela surgiu o IMPERADOR com as suas armas, lógicas, estratégias e organização para me orientar na construção daquilo que estava tentando, através do meu processo de criação e intuição, executar.

Foi nesse casamento da IMPERATRIZ com o IMPERADOR, o meu lado feminino com o meu lado masculino, que encontrei o PAPA, que me ensinou com o seu conhecimento, sabedoria, disciplina e autoridade a religar-me ao meu MAGO na procura de qual seria o caminho, nesta tão desejada mudança, já anunciada e imaginada, pronta para seguir a sua trilha.

Todavia, para que isso acontecesse, eu teria que fazer algumas escolhas e estas não podiam mais ser baseadas nos ENAMORADOS, na paixão e no vício característicos da adolescência, e sim na escolha consciente e sábia da direcção exacta que estava querendo dar ao meu CARRO: no domínio da minha Essência Divina sobre a matéria e o meu Ego. Mas antes, eu tinha que encarar a JUSTIÇA, com toda a sua verdade, harmonia, equilíbrio e segurança, para decidir como poderia, daquela data em diante, reescrever a minha história, numa parceria entre razão e sentimento.

Como poderia ter a certeza de que este seria realmente o meu caminho e não mais aquele que tinha percorrido até àquela data? Neste dilema, encontrei o EREMITA, que através das suas palavras, da sua idade, sabedoria e experiência de todo o conhecimento adquirido na vida, me ensinou a ouvir-me, a respeitar-me e, acima de tudo, a saber o que Sou, ou pensava que era.
Cheguei a um ponto onde já não era mais o mesmo, já tinha tido contacto com meus sons e desejos mais profundos, tocado minha Essência e agora teria que girar a RODA DA FORTUNA; tinha que tomar um rumo novo já que o que estava vivendo não era o meu, e tão pouco me estava satisfazendo. Isto já era bastante claro naquele momento.

Foi aí que tive que usar de toda a FORÇA para me manter firme na decisão tomada e tive que reaprender o que seria encontrar esse caminho. Encarei meus conflitos com coragem. O enforcador encontrou-se finalmente com o ENFORCADO ao perceber os erros transformados em aprendizagem.
Foi necessário abandonar e sacrificar um momento da vida para buscar, firme e realmente, a profunda mudança de rota. Foi a verdadeira MORTE: dolorosa, brusca, profunda, cortando e ceifando toda e qualquer possibilidade de regresso ao que eu era antes.

Como poderia alquimizar tantas desavenças e contradições? Como poderia reverter todo esse processo? Pensei melhor e resolvi encarar tudo. Segui em frente e usei todo o poder da TEMPERANÇA. Foi aí que todo o meu processo começou a explodir e a implodir. Encarei os meus medos, ansiedades, inseguranças; encarei o meu lado obscuro, negro, sombrio e descobri que o DIABO vivia dentro de mim mesmo, no meu corpo, dando-me energia e poder e acima de tudo a verdade.

Tive que desabar todos os meus conceitos e preconceitos, enfrentei a TORRE dos meus valores e desvalores, minhas alegrias e tristezas, amores e desamores e ao encarar comigo mesmo percebi que quando alguém quer construir alguma coisa real e verdadeira, única como o Si Mesmo, deve descobrir, primeiro, qual é a sua fé, a sua crença, aquilo que acredita ser.

Foi então que percebi que, no final deste túnel existia uma ESTRELA brilhante e radiante e que me acenava o caminho do novo, pois já tinha descoberto a minha fé.
Mas ainda seria necessário que eu passasse pela LUA e pelo SOL, pela noite e pelo dia, pelo claro e escuro das minhas verdades, dos meus sentimentos, do meu conhecimento de mim mesmo, para poder alcançar a minha verdadeira identidade, o meu verdadeiro Ser.

E, através do JULGAMENTO eu pude encontrar o meu caminho e entender o porquê de desconhecer, por tantos anos, a minha verdadeira identidade e essência.
E é no MUNDO, no dia a dia, que refaço e reescrevo a minha história. Agora tenho e sou o que sempre quis ter e ser e que nunca tinha parado para pensar o que seria.

Conciliei, equilibrei e harmonizei os meus opostos e, acima de tudo, parei de lutar contra mim mesmo. Hoje, eu sou.

E vocês chamam-me LOUCO......

24 de abril de 2008

Baptizado

Começo a pensar que este país,há muito tempo que deixou de ser o "jardim à beira-mar plantado" e passou a anedota à beira-mar plantada.

Porque é que eu hoje estou tão amarga? Na semana passada fui até à igreja aqui da minha zona saber o que era necessário para baptizar a minha neta. Os baptizados só podem ser marcados às 5ªs feiras das 18 às 19 horas.

Lá esperei até às 18h e 30 e chegou uma senhora muito simpática que começou logo por dizer que o trabalho dela, ali na Igreja, era todo em regime de voluntariado. Eu não tinha perguntado nada mas, não seria mais fácil ter dito que chegou tarde por que chovia que Deus a dava e que apetecia era estar em casa a ouvir a chuva cá fora?

Mas tudo bem. Continuemos...

Comecei por perguntar o que era preciso fazer para baptizar a minha neta. A senhora lá me foi dizendo toda a papelada que era necessária para a criança, para os pais, para o padrinho ou madrinha... agora só precisa de ser um (disse-me a senhora) tem que ser é crismado ou casado pela Igreja. 

- Porquê? - perguntei. 

-Ordens do Patriarcado - respondeu a senhora, muito solicita. Se já tiverem escolhido mais alguém nós chamamos-lhes os "padrinhos do coração"

- Ah! Mais uma coisa que é obrigatória: os pais e os padrinhos (estes só se puderem) têm que vir a uma reunião com o senhor padre. Os baptizados podem ser de várias crianças porque são todos marcados para a mesma hora.

Será que é com este tipo de tratamento que a igreja pensa angariar mais fiéis.

Será que o padrinho de Jesus também era crismado ou casado pela igreja?

Ah! Esqueci-me que naquele tempo não se ligava a esses pormenores.

Será que os crismados e casados pela igreja são melhores do que os outros?

Será que Jesus disse, venham a Mim as crianças baptizadas?

9 de abril de 2008

Geração do Ecrã

Assunto: FW: Geração do Ecrã

Por *Alice Vieira*, Escritora

Desculpem se trago hoje à baila a história da professora agredida pela aluna, numa escola do Porto, um caso de que já toda a gente falou, mas estive longe da civilização por uns dias e, diante de tudo o que agora vi e ouvi (sim, também vi o vídeo), palavra que a única coisa que acho verdadeiramente espantosa é o espanto das pessoas.

Só quem não tem entrado numa escola nestes últimos anos, só quem não contacta com gente desta idade, só quem não anda nas ruas nem nos transportes públicos, só quem nunca viu os "Morangos com açúcar", só quem tem andado completamente cego (e surdo) de todo é que pode ter ficado surpreendido.

Se isto fosse o caso isolado de uma aluna que tivesse ultrapassado todos os limites e agredido uma professora pelo mais fútil dos motivos - bem estaríamos nós! Haveria um culpado, haveria um castigo, e o caso arrumava-se.

Mas casos destes existem pelas escolas do país inteiro. (Só mesmo a sr.ªministra - que não entra numa escola sem avisar...- é que tem coragem de afirmar que não existe violência nas escolas...)

Este caso só é mais importante do que outros porque apareceu em vídeo, e foi levado à televisão, e agora sim, agora sabemos finalmente que a violência existe!

O pior é que isto não tem apenas a ver com uma aluna, ou com uma professora, ou com uma escola, ou com um estrato social. Isto tem a ver com qualquer coisa de muito mais profundo e muito mais assustador.

Isto tem a ver com a espécie de geração que estamos a criar.

Há anos que as nossas crianças não são educadas por pessoas. Há anos que as nossas crianças são educadas por ecrãs.

E o vidro não cria empatia. A empatia só se cria se, diante dos nossos olhos, tivermos outros olhos, se tivermos um rosto humano. E por isso as nossas crianças crescem sem emoções, crescem frias por dentro, sem um olhar para os outros que as rodeiam.Durante anos, foram criadas na ilusão de que tudo lhes era permitido.

Durante anos, foram criadas na ilusão de que a vida era uma longa avenida de prazer, sem regras, sem leis, e que nada, absolutamente nada, dava trabalho.

E durante anos os pais e os professores foram deixando que isto acontecesse.
A aluna que agrediu esta professora (e onde estavam as auxiliares-não-sei-de-quê, que dantes se chamavam contínuas, que não deram por aquela barulheira e nem sequer se lembraram de abrir a porta da sala para ver o que se passava?) é a mesma que empurra um velho no autocarro, ou o insulta com palavrões de carroceiro (que me perdoem os carroceiros), ou espeta um gelado na cara de uma (outra) professora, e muitas outras coisas igualmente verdadeiras que se passam todos os dias.

A escola, hoje, serve para tudo menos para estudar. A casa, hoje, serve para tudo menos para dar (as mínimas) noções de
comportamento. E eles vão continuando a viver, desumanizados, diante de um ecrã.
E nós deixamos.

In *Jornal de Notícias* *,* 30.3.2008


"Pouco conhecimento faz que as criaturas se sintam orgulhosas. Muito conhecimento, que se sintam humildes. É assim que as espigas sem grãos erguem desdenhosamente a cabeça para o céu, enquanto que as cheias as
baixam para a terra, sua mãe". Leonardo Da Vinci

Este artigo fez-me reviver os meus 33 anos de profissão em que assisti a esta degradação. Os professores manifestaram a sua opinião, alguns professores apresentaram soluções, disseram (por se encontrarem no terreno) o que havia a manter e aquilo que havia necessidade de alterar mas, tal como agora, não foram ouvidos e nalguns casos, até foram criticados e chamados de idealistas.

31 de março de 2008

A minha profissão

Desde muito cedo que a minha curiosidade se virou para coisas muito variadas e, de certo modo, antagónicas que vão desde o prazer que sinto em observar a Natureza, os animais e as pessoas, até à astrologia e ao tarot.
Tinha, em casa, um pai que profissionalmente era um irrealizado. Sempre tinha sonhado qualquer profissão que o fizesse estar em contacto com a terra, o seu sonho de menino era Agronomia ou Veterinária. Filho de gente que vivia com certas dificuldades monetárias, muito cedo foi alertado para o facto da sua vida de estudo não poder ser muito prolongada, pois era necessário que começasse a trabalhar o mais cedo possível para que a família fosse ajudada. E então, que contradição, ele que gostava tanto de estar em contacto com a terra, tirou aquilo a que se chamava Curso Comercial e foi arranjar emprego numa empresa que o obrigava, constantemente, a estar em contacto com navios e mar.
Quando comecei a já ter idade para dar longas passeatas, o meu pai levava-me para aquilo que gostava: longos passeios pelo campo, feira da agricultura em Santarém, festa do campino em Vila Franca, dias inteiros passados no Jardim Zoológico e, aquilo que o tinha atraído a ele, começou-me também a atrair a mim mas, com uma ligeira diferença, é que eu, além de gostar de observar os animais no seu dia a dia, as diferentes folhas e flores que encontrávamos pelo caminho, também perdia a noção do tempo quando me punha a observar as pessoas, principalmente crianças.
O meu tempo de estudante foi um tempo normal, sem altos nem baixos e, quando cheguei ao fim do liceu, havia tanta coisa que eu queria que não sabia o que escolher e então, resolvi fazer a aptidão a medicina, e entrei mas, ao fim de uns tempos de lá estar, desisti porque a anatomia não se entendia muito bem comigo, ou eu com ela e assim, saltei para Biologia. Entretanto, resolvi casar.
Estudar e estar casada com um homem que trabalhava muitas horas para compensar o facto de só haver um ordenado a entrar em casa, feria muito a minha sensibilidade e eu sentia que era um peso enorme, sentia que estava a proporcionar um grande desconforto na minha família recente, desconforto esse que só podia e tinha que ser resolvido por mim.
Havia certas coisas de que eu não tinha dúvidas. Sabia que não queria ser empregada de escritório como os meus pais pois, não queria viver os problemas que sempre tinha ouvido contar à hora de jantar, quando nos reuníamos, sabia que queria ter um curso mas que esse curso tinha que ser tirado rapidamente para poder ajudar o meu marido, sabia que gostava de crianças e então, surgiu o mal menor, tirar o Curso do Magistério Primário, e tornar-me professora do 1º ciclo (como agora se chama).
Hoje, já aposentada, depois de 33 anos de profissão, tendo, nos últimos 14 trabalhado com crianças com dificuldades de aprendizagem (porque entretanto, fiz a especialização em deficiência mental e motora) continuo a adorar crianças mas, sempre detestei ser professora nos moldes que me eram exigidos pela legislação.
Neste momento, do modo como as coisas estão, sinto-me muito feliz por já estar aposentada.

10 de março de 2008

Olá amigos!!! Não, não desapareci, tenho só estado ausente por vários motivos que um dia vos contarei. Mas, para me redimir, embora sem desenhos porque troquei de computador e como sou uma rapariga muito jeitosa apaguei todas as imagens que lá tinha e mais uma coisita ou outra, vou-vos deixar aqui três poesias de que gosto muito. Cá vão elas... a primeira identifica-se como um provérbio árabe:

Não digas tudo o que sabes,
Não faças tudo o que podes,
Não acredites em tudo o que ouves,
Não gastes tudo o que tens.

Porque:
Quem diz tudo o que sabe,
Quem faz tudo o que pode,
Quem acredita em tudo o que ouve,
Quem gasta tudo o que tem,

Muitas vezes:
Diz o que não convém,
Faz o que não deve,
Julga o que não vê,
Gasta o que não pode.

Que tal?

Agora, vou-vos mostrar uma poesia de Ary dos Santos que, se calhar já conhecem mas que eu gostava muito de ler aos meus alunos:
Chama-se APRENDER A ESTUDAR

Estudar não é só ler livros
que há nas escolas.
É também aprender a ser livre
sem ideias tolas.
Ler um livro é muito importante
às vezes urgente.
Mas os livros não são o bastante
para a gente ser gente.
É preciso aprender a escrever
mas também a viver,
mas também a sonhar.
É preciso aprender a crescer
aprender a estudar

Estudar também é repartir
também é saber dar.

Finalmente, deixo-vos uma quadra de Sebastião da Gama que eu acho a coisinha mais terna e doce que alguma vez li. Diz assim:

Pra que é preciso falar
se, caladinho comigo,
Deus fala dentro de mim
e diz bem mais do que eu digo?...