28 de dezembro de 2008

Lenda da que mal pica

Lendas de Portugal segundo Gentil Marques
Chegara o Inverno. E com ele o frio. E com ele a desolação. Em certa zona das Beiras, lá para o sul de Castelo Branco, havia um pequeno povoado onde vivia Aninhas, uma rapariguinha de ar aciganado, que punha tentações nos olhos dos homens.
Ora, uma noite, parou ali um emproado fidalgo, que se dirigiu sem demora, ao chefe do povoado.
- Maldito frio!... Acendei-me a lareira, depressa!... Depressa!... Não ouvis, velho imbecil?
Mas o outro era velho, de facto. E a muita idade não lhe consentia pressas...
- Vou já meu senhor, vou já... Nós também temos muito frio...
Altivo, arrogante, o fidalgo olhou o velho de alto a baixo, num ar de soberano desdém.
- Que me interessa o vosso frio? Quero apenas que se cumpram as minhas ordens, nada mais... Compreendeis? Sou eu o dono de todas estas terras!
E quedou-se, soberbo, no meio da sala.
Foi então que, atraída pelo volume e pela força das palavras, surgiu Aninhas, a neta do velho chefe do povoado.
- Deixe lá, avozinho. Eu vou tratar de tudo...
E sem olhar o outro sequer, acrescentou num ar de mal contida ironia.
- Este senhor fidalgo, certamente, vem muito apressado... e muito friorento... Coitadinho!
O visitante voltou-se para ela, surpreendido e desconfiado.
- Onde estavas escondida?... Ainda não te tinha visto...
Avançou, sorrindo, a tentar ser lisonjeiro.
- Que lindo palminho de cara tu tens...
E quis fazer-lhe uma festa. Mas a rapariga fugiu-lhe habilmente.
- Tire s mãos, senhor fidalgo... Olhe que pode sujá-las na minha cara...
Ele disfarçou a contrariedade com uma risada.
- Já vejo que és de força... Mas isso agrada-me, pequena... Estou habituado a domesticar as minhas éguas bravas...
Aninhas fingiu que não ouvia. Limitou-se a apontar para as chamas que começavam a crepitar.
- Pronto... A lareira já está acesa, senhor fidalgo... Pode chegar-se, para se aquecer...
Esquivou-se de novo à aproximação dele, e aconselhou, num tom meio sério, meio gaiato:
- Cautela com o fogo, senhor fidalgo, cautela...
Espicaçado no seu brio, o altivo e desdenhoso fidalgo deixou-se ficar por ali mais uns dias, cortejando a bela e esquiva Aninhas.
- Posso fazer de ti uma rapariga rica e feliz...
A rapariga riu-se:
- Ora, feliz já eu sou... E rica não preciso de o ser...
E ele aproximou-se mais e segredou-lhe:
- E se eu te raptasse... se fugíssemos para o meu palácio em Lisboa?...
Aninhas pôs-se subitamente séria.
- Creio que o melhor é não tentar, senhor fidalgo...
O fidalgo empertigou-se:
- Falarei então com o teu avô... Ele será mais compreensivo... e mais esperto do que tu, concerteza!
A rapariga encolheu os ombros. De descrença, ou de indiferença mas, o fidalgo não hesitou e abalou, resoluto, decidido a levar por diante a sua vontade.
Enganou-se porém, redondamente. A sua proposta desagradou por completo ao velho chefe do povoado, que chegou mesmo a irritar-se.
- Como? Pois o senhor atreve-se? Não, nós não somos dessa gente que o senhor julga... Oiça bem: a minha neta só casará com quem ela quiser... E eu não a troco, senhor fidalgo ou lá o que é, eu não a troco por todo o oiro do mundo.
Arfando de emoção por ter ido tão longe nas suas palavras, o velho chefe terminou com um convite bem explícito:
- Porque não se vai embora daqui, senhor fidalgo?... Quanto mais depressa melhor!
O outro voltou a encher-se de soberba ofendida. Endireitou-se, muito solene e a sua voz esganiçou-se, de raiva:
- Pois então escuta, velho idiota: hoje mesmo, tu e a tua neta sereis expulsos destas terras, que são minhas... Vós é que vos ireis embora! Não vos quero ver mais na minha frente!
O velho percebeu que se excedera e que ficaria a perder pois o outro, além de mais forte e poderoso, já só tinha pensamentos de vingança.
Num reflexo de medo, exclamou com voz trémula:
- Oh, senhor!... Que será da minha neta e de mim? Para onde iremos nós? Não leveis tão longe a vossa crueldade.
Ao fidalgo enfurecido, tudo lhe parecia insulto e, ao ouvir a palavra crueldade, a sua fúria cresceu e deu um safanão no velho que caiu por terra mas, não contente com isso e para poder saciar a sua raiva ainda acertou nas costas do velho com o seu chicote.
Aninhas, atraída pelo barulho entrou e, ao ver esta cena, abriu os olhos de espanto, de piedade mas, ao mesmo tempo de ódio.
- Ah, fidalgo vilão, haveis de pagar caro a vossa ruindade!
Mas, desta vez, o fidalgo voltou-lhe as costas sem a olhar sequer. E as suas ordens soaram enérgicas e definitivas:
- Quero que esta gente abandone as minhas terras... hoje mesmo!... O velho, a rapariga e todos os seus companheiros. Não os quero ver mais aqui!... E se for necessário, empregar a força para os fazer partir.
Não foi necessário usar de violência. Todos abandonaram as velhas casas, nesse mesmo dia... Andaram muito, muito, segundo se diz, passaram fome e frio mas não renunciaram.
Um dia chegaram perto da Ermida de Nossa Senhora das Neves, estavam exaustos e, de comum acordo, resolveram ficar ali porém, outra calamidade lhes surgiu: uma praga de formigas!
O velho chefe, cada vez mais adoentado, foi o primeiro a confessar o seu desânimo.
- Oh, avozinho, não perca a fé!... Deixe lá. Temos de reagir, é preciso continuar a luta!
E voltando-se para os outros:
- Não podemos ficar aqui... Temos que procurar outro local. Desta vez, não seremos nós a procurar o local que nos interessa... Deixemos essa missão às nossas vaquinhas... Onde elas se sentirem bem, aí nós ficaremos para sempre!
Ao soarem as avé-marias na ermidinha distante, soltaram as vacas e deixaram-nas ir, à vontade pelos campos fora...
Conta-se que foi Aninhas a primeira a chegar ao local onde as vacas pastavam tranquilamente.
- Venham todos! Isto é magnífico... Parece um céu aberto!... Vejam como as nossas vaquinhas estão contentes... Sabem porquê? Porque aqui as formigas são bem poucas... E qualquer destas formigas, como podem ver, mal pica...
No meu do contentamento geral, a voz do velho chefe, que todos respeitavam, ergueu-se segura e profética:
- Pois já que assim é... esta nossa terra há-de ficar a chamar-se Malpica!

E desse modo nasceu na Lenda e passou à História a pitoresca e bonita aldeia da Beira baixa, que primeiramente se chamou apenas Malpica - e agora e chama Malpica do Tejo.
E consta ainda, na memória do povo, que o tal fidalgo atrevido e enfatuado veio a acabar de morte horrorosa, mordido e envenenado por umas formigas terríveis, que ninguém chegou a saber de onde tinham vindo...

16 de dezembro de 2008

XI - Força

Esta carta que aqui vos apresento, pertence ao Tarot da Esfinge de Silvania Alasia e publicado por Lo Scarabeo em 1998.
Rider Waite resolveu trocar a posição da carta da Força, com a da carta da Justiça, colocando esta na posição VIII e a Justiça na posição XI. Quando foi questionado para que contasse a razão desta troca, respondeu: "Por motivos que me satisfazem, esta carta foi trocada pela da Justiça que, geralmente, tem o número VIII".
Tanto Waite, como Paul Foster Case e Aleister Crowley colocaram a Força com o 8 e a Justiça como o 11, provavelmente seguindo a Ordem da Aurora Dourada cujo baralho secreto também tem estas cartas trocadas.
Não façamos julgamentos de situações que não conhecemos. É importante é entender o que nos transmite a carta da Força e a carta da Justiça.
A carta da Força baseia-se no segredo da profunda harmonia interior, há aqui uma reconciliação do homem civilizado com a sua natureza animal.
Esta carta apresenta uma mulher a abrir a boca de um leão apenas com as duas mãos. Ora, não seria pela força que a mulher conseguiria abrir a boca ao leão, seria sim, com inteligência, com coragem, com força interior, com o magnetismo pessoal, a compreensão mas nunca com força física.
Exercícios de Meditação com a carta "A Força":
Objectivos - Despertar a força interior e a coragem.
Este é o Arcano que nos mostra o impulso, a coragem, a força interior, o poder mental e o magnetismo que existe dentro de cada um de nós e que é capaz de vencer todos os obstáculos.
Procure um horário em que sabe que não será interrompido por ninguém. Desligue o telefone ou o telemóvel.
Sobre uma mesa coloque então a carta número XI, a Força. Se preferir, acenda ao lado um incenso, coloque uma música suave e relaxante.
Sente-se confortavelmente. Num papel escreva uma afirmação relacionada com o objectivo que pretende atingir, como por exemplo: "Eu guio a minha vida com coragem e determinação"; "Eu tenho a força necessária para vencer cada obstáculo da minha vida, transformando cada situação numa aprendizagem que aprofunda o meu discernimento e eleva o meu nível de consciência".
Pode segurar o cristal olho de tigre na sua mão. Inicie o processo de relaxamento, fazendo os exercícios respiratórios até se sentir relaxado e em paz. Feche os olhos, sinta a paz que o cerca, deixe-se envolver pelo aroma suave do incenso, deixe seu corpo relaxar mais e mais.
Abra os olhos e olhe atentamente para a carta A Força durante cerca de 3 minutos. Concentre-se apenas na imagem e deixe fluir o significado da carta, força, coragem, determinação.
Feche novamente os olhos para iniciar a visualização criativa.
Imagine-se numa praia de uma areia branca e um mar imenso, azul à sua frente. Sinta-se cada vez mais relaxado, caminhe por essa praia e entre na floresta que o cerca. Caminhe confiante. Ao longe, encontra um jardim muito bonito. Vá caminhando por ele, aprecie as flores e os seus aromas, o céu azul, o brilho do Sol, o canto melodioso dos pássaros. à sua frente vê um pequeno lago, ao pé do lago avista uma mulher muito bonita, vestida de branco, que passeia calmamente ao pé do lago. Ao seu lado, caminha um leão forte e jovem; ela domina-o com amor. Vá-se aproximando.
A jovem sorri-lhe, estende-lhe a mão e convida-o para um passeio pelo jardim. Aceite, aproxime-se do leão e da jovem e mantenha-se ao seu lado. Caminhe com confiança, deixe-se ligar ao leão; receba a sua energia.
Agora tem em si a força e a capacidade de dominar os seus medos, instintos e fraquezas. Não recue, a coragem está dentro de si, você será capaz de fazer as suas escolhas sem medo e com muito amor e respeito por si próprio.
Respire fundo, abra os olhos e volte a olhar para a carta A Força. Leia novamente as afirmações que escreveu no princípio do exercício. Coloque este papel ao pé de uma cama e todos os dias, ao acordar, releia as afirmações que escreveu, em voz alta.
Sempre que sentir necessidade, pegue na carta e olhe atentamente para ela durante uns minutos. Deixe-se encher da energia poderosa da carta A Força.
Afirmações (conselhos) para a Força
- Com a coragem e força interior, venço todos os obstáculos, confio e uso de toda a minha coragem.
- Eu sou a inteligência.
- Eu sou o sucesso.
- Eu sou o poder interior.
- Eu sou a harmonia e o equilíbrio.

Assim, sim

                                  video                       Destas touradas é que eu gosto. Os ginastas já sabem com o que contam, que dever ser semelhante aos aleijões que podem fazer em qualquer sarau de ginástica. E, se vão para lá é porque querem. Ninguém os obriga.
Apresentam assim, um trabalho gracioso, elegante e agradável aos olhos. Não se vê nada espetado no touro, pode só sair da arena cansado, mas espetado e sangrado, não sai de certeza e muito menos morto.
Depois de morto ninguém lhe vai cortar orelhas ou rabos para dar de prémio a quem andou ali a ferir o animal.
Ele (touro) quando foi para a arena não sabia o que lhe ia acontecer. Mas os homens que lá estavam, sabiam todos, o que estavam preparados para lhe fazer.
Não me venham cá dizer que o touro que é bravo, não sente... e sente a picada da mosca pois sabe perfeitamente ir ao sítio certo, enxotá-la com o rabo.
Isto era uma conversa que daria "pano para mangas" como se costuma dizer quando nos lembramos de aficcionados que mandam e-mails com "não abandone o seu cão, o seu gato..."
E pessoas que dizem que não gostam de touradas mas adoram caçar? Ainda não se aperceberam que o homem é o único animal (que se diz racional) que mata por prazer?
Por estas touradas apresentadas neste filme, torno-me aficcionada incondicional.

9 de dezembro de 2008

Lenda de Cegovim


Lendas de Portugal segundo Gentil Marques.
Ora aconteceu assim mesmo. Tal e qual como reza a história. Tal e qual como conta o povo. 
Nos seus primeiros tempos de casada com El-Rei D. Dinis, a jovem e formosa Rainha Dona Isabel - à qual chamaram mais tarde "Rainha entre as Santas e santa entre as Rainhas" - foi viver com a Corte para Leiria.
E ali, nesse cenário de sonho o tempo ia passando entre folguedos e jogos poéticos...
Dona Isabel era então ainda muito nova, mas já revelava o seu amor pelos pobres e pelos humildes, levando àqueles que sofriam a consolação duma palavra ou de um gesto. Em vez de ficar reclinada, como o rei, aspirando voluptuosamente o perfume das flores - ela empregava o tempo visitando os que mais precisavam do seu auxílio. E foi no caminho duma dessas visitas que, certa manhã, encontrou nas voltas de um atalho um mendigo leproso, sujo e repelente.
Mal o viu, o homem afastou-se instintivamente. Mas pediu, com voz trémula:
- Senhora, atirai-me uma esmola... porque eu morro de fome e de cansaço.
Ia só, a Rainha. Contudo, nem por um instante sequer hesitou em parar. E parou, e perguntou, com ternura:
- Donde vindes, pobre homem? Pareceis-me bem doente... Aproximai-vos...
Todavia ele não se aproximou. Antes, pelo contrário, recuou. Mais e mais.
- Não, senhora, não... Isso não!... Não sei quem sois... mas não me toqueis!... Bem vedes... A minha doença é praga maldita que não perdoa a ninguém.
Dona Isabel suspirou. A miséria humana atormentava-a tanto, tanto... Ah, se ela pudesse!...
- Parai, pobre velho... Fugis, para quê?
- Para não vos pegar o meu mal, senhora... Já vi que sois boa!
E o mendigo fazendo alarde das suas últimas forças, procurava afastar-se o mais rapidamente possível... Porém, as pernas fraquejaram e ele caiu de borco no chão poeirento. Sem hesitar, Dona Isabel correu para junto do velho.
- Estais ferido?
- Oh, senhora, por quem sois, rogo que vos afasteis!... Sinto-me morrer aos poucos... mas fugi, fugi de mim!... Eu sou maldito!
- Não sejais tonto, pobre homem... Vinde comigo!
E perante o olhar estupefacto do velho mendigo, a Rainha acrescentou, numa voz meiga mas sem réplica:
- Amparai-vos ao meu braço!
Apenas um gemido saiu dos lábios trémulos do homem. mas já ela, segurando-o e amparando-o, lhe dizia, sempre a sorrir:
- Podeis fazer força... O meu braço também é forte...

E assim andaram algum tempo. Estranho par, na verdade! Pelo atalho cheio de pedras e de poeira, um velho mendigo, leproso arrastando-se encostado ao braço duma rainha!
Enquanto andavam, Dona Isabel sentia que a vida dele se estava a extinguir, pouco a pouco... Sim, o mal do pobre homem, além da lepra que o devorava implacavelmente, devia ser fome... Uma fome terrível, decerto... E era preciso salvá-lo!
De súbito, parou. Olhou em redor. Sentiu-se aturdida, desorientada. E, sem que o velho a pudesse escutar, rezou.
- Oh, meu Deus!... Ajudai-me! Não vejo o que possa dar a este pobre homem... A não ser... A não ser estas pequenas amoras que aqui estão perto de mim... Mas as amoras não matam a fome...
Fez uma pausa. Os seus olhos prenderam-se mais às amoras. Teve um sopro íntimo de inspiração.
- Quem sabe? O poder de Deus é grande, é infinito!... Quem sabe se Ele não pôs as amoras no meu caminho... apenas para me experimentar?
E sem mais hesitação colheu uma mão cheia de amoras e deu-as ao velho mendigo.
- Tomai... Tomai nas vossas mãos... Comei estas amoras!
Espantado, indeciso, arfando de cansaço e de emoção por tudo o que lhe acontecia tão inesperadamente, ele ainda perguntou:
- Achais que eu possa comer estas amoras... senhora?... No meu estado?...
Prontamente, a Rainha respondeu:
- Podeis, sim!... Podeis e deveis... Confiai na vontade de Deus!
Embora sem grande entusiasmo, o mendigo foi comendo devagar as amoras que a Rainha lhe oferecera... E à medida que as comia, decerto por efeito sobrenatural, ganhava novas energias, sentia-se mais forte.
- Senhora! Senhora! Isto é um milagre!... Quem sois vós senhora?
E endireitava-se já sem necessidade de se apoiar ao braço da Rainha. Desaparecera o cansaço por completo. Restava apenas a emoção.
- Senhora, quem sois vós? - insistiu ele.
- Sou uma mulher que tem fé.
Depois, olhando-o e sorrindo-lhe, acentuou:
- Se tiverdes fé, também as vossas feridas hão-se sarar!
A medo, o homem olhou as chagas da lepra e voltou a fitar a mulher que encontrara em seu caminho, nessa manhã. Ela agora parecia ainda mais jovem e formosa.
- Olhai... Ou eu me engano muito... ou as vossas feridas estão a desaparecer... Vede!
E perante o olhar cada vez mais atónito do mendigo, à medida que as mãos de Dona Isabel iam passando suavemente sobre as feridas, estas desapareciam, fechando-se incompreensivelmente.
Sem saber que pensar, sem saber que fazer, o homem voltou a gaguejar:
- Senhora... as vossas mãos... fazem milagres!
- Não são as minhas mãos que fazem milagres... São as amoras que Deus espalhou por estes caminhos!
Segundo a antiga história que o povo conta, tal como muitos outros já tinham ficado seus fiéis vassalos, também o mendigo, curado e maravilhado, se tornou um fervoroso servo daquela que o salvara e que ele veio a descobrir, com pasmo, ser a sua própria Rainha!
A partir de então, o pobre homem desejava somente poder pagar um dia, de qualquer modo, a sua enorme dívida de gratidão.

Andava ele, já altas horas, a terminar um carregamento de lenha, quando viu passar um vulto embuçado, que lhe pareceu de alguém bastante conhecido...
Seguiu-o discretamente, aproveitando os recantos do campo - que para ele não tinha segredos - e acabou por descobrir que se tratava de El-Rei D. Dinis, numa das suas aventuras de amor.
O homem não perdeu mais tempo. Com a maior rapidez que lhe foi possível, correu ao encontro da Rainha, então instalada em Monte Real, a pouca distância dali. E, conseguindo ser levado imediatamente à sua presença, confessou sem delongas nem hesitações:
- Senhora, minha Rainha, perdoai-me... mas sei que El-Rei vosso esposo vos atraiçoa numa aldeia vizinha!
- Que dizeis, meu bom amigo? Estais certo disso?
- Absolutamente certo! Vi-o, com os meus próprios olhos... Ia embuçado... Eu segui-o até à pequena aldeia para onde El-Rei se dirigia... Mas, ficai sabendo, Senhora, que vosso esposo sai muitas vezes assim, às escuras... Mal distingue o caminho, quando volta!
- Pois bem... Escutai... esta noite, ireis vós e alguns homens mais que escolherdes iluminar o caminho, quando El-Rei voltar... Sou eu que vos ordeno, entendeis?
- As vossas ordens serão cumpridas, senhora minha Rainha!
Mas antes que ele se afastasse, Dona Isabel, acrescentou:
- Quando tudo estiver pronto, avisai-me... Eu também quero estar junto de vós.

E, na verdade, quando El-Rei, nessa madrugada escura, voltava da sua habitual aventura de amor, encontrou-se, de súbito, diante dum caminho estranhamente iluminado.
O seu primeiro gesto foi de furor.
- Que fazeis aqui, sandeus? Para que servem estes archotes?
Mas logo se aquietou, varado de surpresa. Vindo do meio dos homens dos archotes, avançou para ele a própria Rainha, que lhe respondeu:
- Estas luzes servem para vos iluminar o caminho, Senhor meu Rei... Vindes cego certamente pelo negrume da noite...
D. Dinis compreendeu. Baixou a cabeça. Quando a ergueu de novo, sorria também.
- Tendes razão, Senhora... Cego vim... E por isso vos agradeço terdes tão bela lembrança... Voltemos a Monte Real!
Cortejo singular, esse, a estender-se pelo caminho. À frente El-Rei D. Dinis e a Rainha Dona Isabel. Ambos calados. Ambos pensativos. Ambos iluminados pelos archotes que os homens erguiam nas suas mãos rudes.
De qualquer modo, fosse como fosse, a notícia propagou-se e no dia seguinte não se falava de outra coisa. De tal modo, que D. Dinis resolveu procurar a Rainha nos seus aposentos:
- Senhora... Fala-se demais no caso de ontem à noite...
- E de quem é a culpa, real Senhor?
- Bem sei que é minha... E por ser assim, venho trazer uma novidade que decerto vos agradará...
- Dizei então...
- Daqui em diante vou chamar àquele caminho... o caminho de Cegovim.
- Muito bem, real Senhor.
- Fostes vós que me destes a inspiração! ... De facto, cego vim... até encontrar os vossos archotes... Vós o dissestes... E eu não esqueci.
- Prouvera a Deus que não o voltasses a esquecer!
- Sim, eu andava cego... Perdoai-me!
- Estais perdoado...
E convidando-o a sentar-se junto dela, numa banqueta de seda, Dona Isabel segredou-lhe:
- Não vos esqueceis, Dinis... Aquele é o caminho de Cegovim... E lá para trás fica a aldeia do Amor!...
Riram ambos. As pazes estavam feitas, mais uma vez. Feliz, tranquilo, jovial, El-Rei acrescentou, rindo ainda:
- Isso mesmo: o caminho de Cegovim... e a aldeia do Amor... Sois a mais inteligente das mulheres... e das esposas!
Não consta que, pelo menos nos tempos mais chegados e naquele mesmo local, D. Dinis voltasse a andar pelos caminhos, de noite, às ocultas da Rainha...
E então, ali a uns dez quilómetros de Leiria, ainda existe a pequena aldeia de Amor. E lá está a ligá-la a Monte Real o caminho de Cegovim (actualmente penso que mais conhecida por Segovim ou Segodim)

NOTA: Mas, segundo reza a História, acho que D. Dinis rapidamente esqueceu a promessa. Os galanteadores são muito mentirosos.......

8 de dezembro de 2008

X- Roda da Fortuna

Esta carta pertence ao Tarot de Visconti-Sforza. Não se sabe quem o desenhou mas foi publicado por US Games em 1978.
A Roda da fortuna mais tradicional e também a de interpretação mais recente, tem a sua origem numa lenda medieval. Nessa época da história a Igreja católica considerava que o orgulho era um dos maiores pecados porque entendiam que o orgulhosos se colocaria sempre acima de Cristo portanto, uma lição para o orgulhoso seria perder todo o seu poder.
Uma das muitas versões da Lenda do Rei Artur conta que ele vê, em sonhos, na véspera da sua batalha final, um rei rico e poderoso, sentado no cimo de uma roda mas, de repente, a deusa Fortuna gira a roda e o rei poderoso que estava no topo, fica esmagado por baixo da roda.
No entanto, esta Roda da Fortuna tem uma origem muito mais antiga em que a Fortuna representava a Grande deusa e o rei a perder o trono era um facto pois, todos os anos, no meio do Inverno, as sacerdotisas simbolicamente sacrificavam o rei e substituíam-no por outro, dando a entender que a Primavera voltaria a chegar e que a Roda representaria toda a espécie de ciclos de vida.
De um modo muito resumido podemos olhar para a Roda da Fortuna, pelo menos, de duas maneiras: numa delas podemos ver os altos e baixos que sempre encontramos no percurso da nossa vida e que nos amadurecem com o aumentar do nosso conhecimento mas, também podemos ver aqui as sucessivas reencarnações em busca do caminho da iluminação.
Sendo assim, numa tiragem podemos ver na Roda da Fortuna o aviso que nos vamos aproximar de uma época de grandes mudanças que se as aceitarmos e compreendermos só nos vão ajudar no nosso desenvolvimento e crescimento.
Exercício de Meditação:- Vá até um lugar sossegado onde tenha a certeza que não irá ser perturbado. Coloque à sua frente a carta da Roda da Fortuna, fixe por uns momentos a sua atenção na carta. Olhe atentamente para todos os pormenores: para cada uma das figuras que estão presentes na Roda, para o centro dessa mesma Roda. Inicie uma série de respirações até se sentir completamente relaxado.
A seguir tente pensar nos seus conflitos ou problemas que o envolvem ou afectam actualmente.
Feche os olhos, solte a sua mente e tente ver os seus problemas como se estivesse a assistir a um filme onde é apenas o espectador. Visualize os personagens envolvidos. Para cada uma escolha uma figura do Tarot que represente cada pessoa ou situação na sua vida.
Visualize um cenário. Onde está? O que sente? Qual é a história? E como acaba?
Visualize agora a Roda. Em que sentido gira? Que sentimentos lhe traz a imagem que está por cima?
Aproxime-se e olhe atentamente para a figura do centro. Não faça perguntas, limite-se a olhar. Começa agora a sentir uma calma profunda... olhe atentamente para o movimento do aro da roda... começa a sentir-se cheio de energia e completamente revitalizado com a vida.
Procure descobrir no movimento da roda um fio de sentido para a sua vida. A roda gira, gira assim como a vida. Sente-se cheio de energia para resolver qualquer obstáculo, problema ou situação da sua vida.
Respire fundo, aos poucos desvaneça a imagem da roda e tudo o que criou. Abra os olhos, se sentir necessidade, pegue num papel e escreva tudo, o que sentiu, o que acha que deve fazer, enfim, escreva o que lhe apetecer mesmo que no momento ache que não tem muito sentido.
Nos dias seguintes leia o que escreveu. Esta carta costuma enviar-nos respostas claras desta maneira, encontrando as respostas que não se viam no momento.
Afirmações (conselhos) para a Roda da Fortuna:
- Adapto-me a todas as mudanças que ocorrem de forma serena. Deixo as forças do destino agirem sem medo do futuro.
- Eu sou a capacidade de mudar.
- Eu sou o criador do meu próprio destino.
- Eu sou a eterna energia em movimento.